sexta-feira, julho 11, 2014

...e o Senhor Flores esfregou a lâmpada...

- Ok…. Vamos a isso. Já deves ter visto isto na televisão ou ouvido falar do esquema por isso já sabes como funciona. Tens direito a 3 desejos… força aí…
- Espera, espera…. Deixa-me pensar. Isto tem que ser bem feito.
- Não vale a pena pensares muito e sobretudo não te armes em espertinho. Não te ponhas a inventar um desejo que valha mil desejos. Aqui não funciona. Fazes como toda a gente, pedes dinheiro ou gajas ou saúde, qualquer coisa assim, está bem? Que eu quero é pôr-me na alheta o mais depressa possível…
- Tu é que vais ter de arranjar paciência. Estás com pressa, viesses mais cedo. Eu quero pensar no assunto e se me apetecer levar uma semana a decidir-me só tens é de aguentar-te.
- Mas que merda. Vá lá!!! É sempre igual pede já toneladas de dinheiro e deixa-me ir. Quanto mais pensam mais enrolam e no fim toda a gente se lixa, inclusive eu. Da última vez um atrasado quis guardar o supostamente “mais sagrado” desejo para o fim. Sagrada merda foi o que ele arranjou. Tinha-me pedido um carro veloz e acabou espetado numa árvore antes do último desejo. Lá tive eu de tentar ressuscitá-lo para poder terminar o serviço dos 3 desejos. Aguentei-o vivo por mais 2 minutos. Não pediu o desejo. Depois tive que acordá-lo mais 3…. Nada outra vez… Quando lá se decidiu a deixar a fortuna à prima já não tinha um olho nem parte do maxilar. Tive quase que adivinhar o que ele queria… O anterior pediu-me para matar o primo. Foi o que fiz. Era o u último desejo. O problema é que o primo era outro gajo qualquer que ninguém conhecia porque os homens tinham sido trocados á nascença, de modo que de primo não tinha nada, e por isso ainda menos mal fazia quando este comia-lhe a mulher… Erros técnicos que depois levam tempos a resolver, discussões, ralações nas relações. Vá… Pede já a nota que eu quero me pôr a andar.
- Não posso pedir um mundo melhor?
- Já te disse para não inventares. Já me pediram isso uma vez. Foi a maior merda da história. O mundo melhor existe nos nossos corações. Cada um tem o seu mundo melhor. Lixam-se sempre os que ficam de fora. Se quiseres arranjo-te uma casinha no Alentejo. Crias vacas e plantas árvores. Sacas uvas, azeitonas, merdas assim. Ficas com um cantinho fixe para ti. O teu mundo melhor…
- Posso pedir imortalidade? Ou um super poder…
- Ouve uma coisa. Eu sou o génio dessa lâmpada. Tenho imortalidade e os super poderes todos. Vivo nesta merda. Sou maior que esta merda. Isto não faz sentido. Pede já dinheiro e deixa-te de invenções, já te disse. Queres um super poder? Despacha-te. Torna-te o homem mais rápido do universo a pedir desejos.
- Mas se não gostas de viver aí dentro qual é a pressa?
- A pressa é que o mundo é uma janela. Vivo aqui dentro, mas a minha alma vagueia como o vento. Mesmo aqui dentro a minha janela amplifica-se e consigo estar em todo o lado. No meu canto apertado, os animais correm em liberdade, fazendo tremer o chão por onde passam. Os cavalos da Camarga, os elefantes da planície, enfim… A liberdade. É isso pelo que anseio. Cada segundo que aqui estou é menos um que respiro.
Sabes, Senhor Flores, és um nabo. Isto que te vou dizer é maior que qualquer desejo que possas pedir.
À tua volta existe gente a quem falta aquilo que tomas por garantido. Há gente não come, há gente que morre, há gente que não tem um telhado para se abrigar da chuva e do frio da noite. Ainda assim consegues vê-los sorrir e correrem ao vento. A tua alma é maior que qualquer um dos cantos desta garrafa de onde venho. Tens mais janelas num cabelo que eu terei nos anos todos que vivo. Mas nada disso te interessa. Não queres ver o que há cá fora. Preferes ver o que te mostram na televisão. Não saias de casa, haverá sempre quem foda por ti no computador. Há gente que ri e chora para teu entretenimento. Que entretenimento é esse que te cola aos teus problemas. As tuas ansiedades á noite não são fruto da tua doença. A tua doença é fruta para o teu entretenimento. Tudo só porque tens medo Flores. Pede lá a merda do dinheiro para eu me poder ir embora. Nada do que me vais pedir me impressiona nem me faz feliz. E a ti vai resolver-te a vida durante 2 dias, pelo que as doenças vão voltar, por mais que peças saúde. Tu tens saúde seu anormal. A doença é essa tua cabeça de televisor. Não precisas de nada daquilo que vais pedir. Sabes que mais? Faz um favor a toda a gente. Pede para alguém te empurrar da tua varanda. Pede para que te passe um carro por cima. Pede qualquer coisa que mude qualquer coisa, nem que seja para que alguém se livre de ti.
Pede já a merda do dinheiro, para eu ir-me embora.

quinta-feira, julho 10, 2014

Alice..... Ai Alice...

… e Alice, envolvida e revolvida por este cenário que já era parte da sua pele, perguntou ao Gato:
- Que tal este meu casaco? Hoje estou de cinza em homenagem ao teu pêlo…
- Em minha homenagem… O cinza já passou para a minha pele. Já não é apenas uma questão de cor nem de pêlo. Eu sou cinza porque me tenho sentido assim ultimamente. Sinto as cinzas no meu mais profundo. Estarás tu a querer dizer que te vestiste por solidariedade? Empatia? Simpatia emocional? Carinho? Paixão? Será paixão Alice? É que desta feita vais ter um problema.
- Não te estou a entender. O que eu queria Gato, mas que não digo, é que gostava que tivéssemos uma ligação. Daí tentar por várias formas uma aproximação, por vezes em tom de provocação, por vezes uma mensagem subliminar, uma queixa, um sorriso…
- Alice. Percebe-me. Nada me dá mais prazer que te vistas da minha alma. Adoro as queixas, adoro que te sublimes, e adoro esse teu sorriso. O único problema é que precisamente esta última, a minha alma, muda de cor quando surges. Agora que estás aqui, mais bem terias trazido um casaco amarelo, ou laranja. É a cor de como me sinto quando apareces…
- A sério? Tudo bem eu mudo. Mas onde está o problema? É só mudar…
- Mudar faz mudar Alice. A tua sintonia não combina com as minhas ondas sonoras. Percebes Alice, sou de outro planeta. No meu mundo tons de cinza, não há espaço para os outros, as suas vontades, para os seus desejos, e as suas carências geram-lhes insatisfação quando entram na minha esfera. No meu mundo voamos ao sabor do vento. Somos vagabundos. Mudamos cá dentro a todas as horas.
- Gato, e porque não tentas descer para mais perto de mim? Talvez a tua cor surja de debaixo do teu cinza…
- É que já estou acostumado a ele. É cinza mas é o meu. Com tudo o que carrega e desfaz.
- Mas e esse teu sorriso?
- É só um sorriso. Não leva nada debaixo. Só é verdadeiro quando me fazes rir.
- Posso ser eu então, a perder-me no teu cinza?
- Já te perdeste faz muito tempo. Tão cedo não te levantas daqui. Eu não te deixo. É tão bom ter-te por cá…
- Gato, não te percebo…
- Fico feliz. Perdoa-me. Mas sabes, ás vezes abrir o jogo ajuda a mudar as marés. Talvez o faças, talvez não te atrevas nunca.
- Abrir o jogo? Como assim?
- As coisas que não se dizem são como os saltos para o vazio. Ninguém os quer realmente dar, mas quem salta vive melhor. A única vida que temos melhora depois do salto. Seja ele qual for. Os armários das nossas vidas têm de ser abertos. Uma vez abertos podemos sair de lá. De uma vez por todas.
- Armários Gato? Saltos para o vazio?
- Sim. Toda a gente tem armários em que nos fechamos. O problema é quando gostamos do nosso.
- Mas que merda Gato! Decide-te!
- Não consigo.
- Salta caralho!
- Tenho medo.
-Queres um empurrão?
- Não.
- Olha que estou vestida a rigor!
- Também fico feliz. Ficas gira de cabelo solto. Ficas sexy de cabelo apanhado. Perdoa-me de novo. Fica comigo. Deixa-me em paz.
- Gato estúpido…


domingo, maio 04, 2014

Chega pra lá






Hoje não me aborreças. Não os quero ver pela frente com as suas tíbias a tremer da menos frescura e do excesso de bebida. Não me venhas com as tuas falinhas espertalhonas e os teus ares de menino crescido para cima de mim. Não te aturo nem a ti nem aos teus clientes imbecis que não fazem mais nada senão olharem-me de alto abaixo com a baba pelo joelho. Já que me tenho de conter que ao menos lhes contenha a saliva para outras curvas mais exóticas. Mais coloridas. Tudo menos eu. Não sou escravo desta gente que se detesta para cima de mim. Faço mais do que a minha vida o depende. Eles que rebentem com as suas longe do meu desespero.
Mas que merda. Merda pra mim.
Podia ter sido outra coisa. Outra metade. Nem era preciso tanto. Bastava ser um pouco mais em vez de existir para este buraco. Olha ali aquela senhora. Como ela por exemplo. Trabalha sim, e de que maneira, mas pelo menos tem dias em que não pensa nisso. Sai e vai jantar fora. Olha de longe para os seus a crescerem, a envelhecerem. Com alguma paz por vezes. Olha para ela. Fala com este, rí-se com aquele outro a fazer parvoíces com um sorriso na cara. Vai e vem. Vende o sal da vizinha. Recebe uma visita do marido. Dois dedos de conversa. Olha lá para ela. Hoje ele trouxe.lhe um casaco. “hoje sais comigo e nem quero desculpas. Tu e eu vamos ali beber umas espanholas.”
Vês, lá vai ela…
Sabes, ela tem dias em que não quer que a aborreçam. Como eu. Ás vezes não os quer aturar…
Mas sabes….
É só ás vezes.

terça-feira, abril 22, 2014

lusco ou fusco


Dizer boêmio é a mesma coisa. Ou dizerem-me que sou quem sou, sempre com os olhos fixados na presa, sendo que os olhos são deles mas a representação é da minha pessoa. Vagueio e espreito o aqui e o ali, ao som do ar e ao cheiro das várias cores que estas ruelas vão tecendo ao longo das suas calçadas, poças sujas e ventos cortantes, alguns corredores de  mar que por cá vão surgindo. No meu torno são as cores que refletidas no escuro do céu, prestam-se a outros tons, que o dia não permite. Ou então é o céu que resulta destas misturas. Por sua vez assemelha-se a um cocktail lusco-fusco mas onde o prazer vem da inquietação e do silêncio da noite, mesmo se este último acaba por nos embalar,  num misto de paz e sossego no desconhecido. Não consigo parar noite após noite, ando e ando e vagueio e vislumbro o lado negro do escuro. Por vezes cruzo-me com o princípio do fim, num encontro menos fortuito para mim. Se vejo algo que não devo só eu o saberei. Só cá está quem fica. Vejo toda a gente que não quer ser vista. Conheço-vos a todos e sei tudo sobre as vossas segundas caras, aquelas que nem as metades das vossas imaginam. Sei o que fazes, sei por onde andas. Vejo tudo. Mais cedo ou mais tarde acabam por entrar no meu terreno de jogo. Muitas vezes mando eu nestas versões do dia. Outras vezes espero que a mão venha do meu lado. Há muitos como eu. Alguns respiram na margem do meu espaço, outros sanguessugam enquanto podem, uns abutram os restos, não sem antes testar o terreno. Há quem provoque, há quem deslize, há quem peça mais que tudo, e há quem o dê por quase nada. É assim que evoluem os sentidos nestes caminhos e lugares assombreados e assombrados pelo quase nada que acaba por se transformar em dia.

sábado, março 29, 2014

Nope.

As teclas desfilam em silêncio, já a vibração faz-se ouvir até ao fundo da sala. Nas mesas do bar, quem ouve o que sai dos meus dedos já não respira. Muitos deixaram o pensamento levantar voo e derivar por aí. Os conhecedores, críticos e outros pseudo pensadores do panorama musical, dos mais cor-de-rosa, passando pelos céticos e acabando naqueles cuja função é fazer-me afundar com as suas opiniões versus impressões, todos esses já entregaram, que é como quem diz, a alma ao criador. Hoje o criador sou eu, criador de notas e de cores no coração de todas estas almas. O fumo que enche a sala ofusca os olhos dos outros, os embasbacados, os opiniadores, os que decidem o que é bom e o que não presta, por todos nós, todos eles, que não vêm mais do que aquilo que lhes mandaram ver, esses que já estão iludidos dos meus próprios olhos, por este fumo todo, de cigarro e de outras companhias exóticas. Se eles soubessem que nem sequer estou cá...
As teclas reorganizam-se por si. Ajustam-se, os volumes deslizando ferventemente uns contra os outros, os silêncios gelando-lhes o sangue, mais um crescendo, mais uma sequência vertiginando em espiral, mais um sufoco. Alguém grita, alguém sente falta de ar, alguém respira a êxtase do amor... Se eles sonhassem que nem sequer estou cá...
Os meus dedos conhecem todos os cantos e recantos do mapa axadrezado deste piano, que piso noite após noite, nesta sala, neste bar, apinhado pelos meus movimentos, feliz a administração, que me compõe os poucos bolsos que consigo satisfazer, e que irei rebentar, mais tarde, neste mesmo bar, na pura desilusão de umas belas de umas garrafas, uns cigarros e companhias exóticas. Nem sequer estou lá, quanto mais cá.
Os olhares sinuosos de algumas damas em desespero de um esgar, meu. Umas pernas descruzadas no momento em que mudo de posição, numa vã tentativa de descruzar o meu próprio limbo, um sinal encorajador com a cabeça inclinada, lábios salientes, olhos penetrantes, até mesmo uns convites detalhados após o termo do meu exercício. Mas nada me move, nada me altera, nada me mexe. Como já tinha dito, hoje não estou cá.
Já chega. Faço silêncio. Assustam-se dele. Quem se movia, desistiu. Quem respirava cortou o ar da alma. Dá-se uma pausa. Um compasso. Estamos de volta a terra.
Levanto-me e dirijo-me, como todos os dias, ao meu lugar encantado, para mais umas garrafas, uns cigarros, ou outras companhias exóticas.
- Hoje tiveste fabuloso! FA - BU - LO - SO !!!!!!
Tem graça. Hoje nem sequer estou cá.

O senhor Flores hoje não para um segundo



O senhor Flores hoje não para um segundo. Anda de um lado para o outro, rói a restante quitina dos dedos, bate com eles na mesa, levanta-se, senta-se, vira e revira, para regressar onde está, sempre que a mente dele regressa de onde veio. Parece que cada ideia tem o seu lugar específico, na casa onde o Sr. Flores reside.
As preocupações estão arrumadas em prateleiras na cozinha, onde o tempo não passa permitido assim estudar cada lata, cada garrafa, os garfos, as colheres, os pratos fundos e os pratos rasos, todo um conjunto de utensílios que refletem as ferramentas para os vários nós da sua vida.
Já os sonhos, esses exigem um breve sentar, junto do conforto do cadeirão da sala. A visão organizada da organização desta divisão permite-lhe perceber a ordem das ideias que o levarão ao sucesso da sua empresa, seja ela qual for.
Os juízos de valor são feitos no seu quarto. De preferência com a porta fechada. Apesar de viver sozinho, o Senhor Flores precisa de mais esta reclusão. Medita enquanto julga, com a fronte encostada à janela e à vista repetida dos carros a passar. Ainda se vê um parque infantil, mas em dias de juízos de valor, de julgamentos de pessoas, o tribunal das relações intropessoais exige que a porta do quarto esteja fechada, mesmo que a rua possa vir a ser um desvio da concentração, com todos aqueles motores a rodar e a urrar, e que o parque infantil se considere um detalhe a eliminar dos arquivos do processo. Aqui a ideia é que a ideia não saia por onde entrou, mas respire um pouco do que a liberdade traz, caso se confirme um parecer semelhante.
Existem muitas mais variações na mente deste homem. Muitas que residem fora de casa, isto é apenas um exemplo. Existe a  rotina dos andares descidos para as desiluzões, as riscas brancas das passadeiras para os ensinamentos, os caminhos do capuchinho vermelho quanda pensa numa resposta a dar a alguém, o corta-mato do lobo mau quando a notícia é menos alegre. A rua das mentiras, a praça do questionário, tudo tem um lugar, tudo ao seu lugar.
Hoje ele não sossega. Ideias que não consegue arquivar.  Não possuem espaço próprio, não são catalogáveis. E isto ele não percebe. Não entende. Esta casa não as consegue arquivar. A rua também não. Onde as ponho? Onde as arrumo? Como as resolvo? Por onde as encaixo. Entre o quê e os quês? Devolvo-as? Não. Não se pode devolver ideias com esta importância. Jogo-as num poço sem fundo e tapo a entrada? Também não quero. Mais cedo ou mais tarde tudo volta.
Sejamos honestos por um momento. Estás a tentar enganar quem Senhor Flores? Nós é que não enganas de certeza. Nós? Nós!? As tuas ideias? As tuas fantasias, os teus receios? Nós, que te levamos em qualquer lado do mundo. Nós, no teu profundo, que te arrastamos até à cozinha, depois á sala, de seguida ao quarto, e de  novo á cozinha, quantas vezes quisermos Senhor Flores... Tu sabes o que queremos. Queremos o que achas que precisas. Se não o sentes ainda tratamos de to meter na ponta da língua...
Precisas de novos lugares, lugares que a teu lar não te providencia mais.
Senhor Flores, as tuas ideias precisam de uma casa nova.

quinta-feira, março 27, 2014

Zig Zag

Sonho com caminhos. Caminhos do tipo fotografia. A maior das metades, no extremo superior, reflete o azul do céu. As núvens são poucas, unicamente para não cansar a vista de toda esta pureza de ar. Vento nem vê-lo. O cheiro vem do mar, mesmo se já cá não anda. Em baixo tudo é verde. As subidas e descidas da relva e das flores provam que o mundo se moveu um dia. Sinuosa-se por entre estes verdes um caminho de terra, que alguma bicicleta há de tracejar. Cenário tipicamente Neruda. Idade do Pablo.
Por vezes vemos isto e olhamos para ele. Por vezes sonhamos com ele, versão sépia da vida. Já o vivi. Já o vi. Fotografei-o várias vezes, mas a minha mente mantêm uma vivência diferente, com cheiros, sons e cores que a máquina esqueceu de levar com ela. Sonho que estou no topo. Sonho que já passei para o outro lado. Sonho e nunca chego lá. Ninguém chega lá. Este sonho é como o tempo. Como o tempo presente. Como o tempo futuro. Chegas lá e já era. Está lá atrás no passado. Olha, sabes que mais? é um caminho. Só mais um dos caminhos com que sonho. E sabes que mais ainda? Ainda bem que não chegas lá sem passares pelo passado. Só assim se desenha sem se estragar, o futuro caminho que há de vir.
Acho que está na hora de tomar os comprimidos.


O outro lado do espectro



Check-in Check-out

Cinco da manhã… O sono e o cansaço vão me mantendo acordado. O cérebro flutua enquanto os olhos tentam desesperadamente distinguir o céu da sombra. Qualquer exercício mental dói. Até estas teclas do computador parecem ganhar um peso extra… Anseio pela hora da saída, que dá inicio ao dia dos outros, com exceção do meu. O meu dia veste-se de escuro. O meu sol é um satélite e não estrela. O meu dia  deixou de o ser faz tempo...  Quando se trabalha de noite não se é um pássaro da noite. Não se sai depois do pôr-do-sol para uns copos. Não se olha para o relógio a partir das quatro e pensa-se que já é noite dentro. Quando se trabalha, essa hora é apenas metade do turno que se foi, sendo que o resto há de vir ainda. Se durante os dois dias de descanso tentamos levar uma vida como a da grande maioria do mundo, então aí nem se faz nem se deixa fazer. Andamos do tipo zombie o dia ou a noite toda. O tempo passa numa redoma artificial. Só os dias, esses soldados imbatíveis, desfilam uns após os outros sem dar tréguas a quem nasceu humano. Olhas para eles e não os vês. Desta vez não é o tempo que passa demasiado depressa. É antes o tempo que passa como se andasses de metro e olhasses pela janela, dia após dia, após dia. Os silêncios misturam-se com a cor da parede. O zumbido errado. o da cabeça e não o do silêncio...
Não durmas não.

terça-feira, fevereiro 04, 2014

Hoje á noite

O Senhor Flores está sentado na sua cama. O sono recusou-se, mais uma vez, a visitá-lo. A noite vai a meio. A meio do quê? Se o meio da noite mais parece um poço sem água faz séculos... Séculos de minutos. Séculos de paredes do quarto, cujas curvas, as sombras, as rachas já são mais do que família... Hoje invadiu-o a inquietação. Hoje o seu espírito resolve ruir. O estômago d'outrora já não cai na conversa da coragem. A garganta cerra os punhos. Os punhos gelam-lhe os pés. O frio cola-se. Uma lapa este frio. Flores não se mexe. Não ousa. Fecha-se por dentro. Treme e encolhe-se. Tenta pensar em minimizar os gestos. Os gastos. Não olhes para o relógio, pensa ele. Tudo passa, até o tempo, até a noite um dia... Desta vez tudo parece ir ao seu desencontro. Muitos algos que não fazem sentido. Até o ar não parece girar no sentido habitual. Todos os algos sussuram. Os sons desconfortam-no em sintonia.

Hoje vai-te abaixo meu cabrão.

Quando o calor aperta



A música é lânguida. Arrasta-se como se tivesse uma corrente presa nos pés, cadeados de ferro a sulcar o chão. O ar quente sufoca-me e deixa-me mais lento ainda. O ritmo hoje também abranda os corpos que passam por mim. Hoje quem tem ódios teve mesmo de pô-los de lado, afim de sobreviver a este dia. Está demasiado calor para a guerra. Hoje quem tem amor deve abrandar o ritmo. O calor tem destas coisas. Amena o bem e o mal. A música recusa-se a ultrapassar os limites da temperatura. Até ela sente o peso de um dia destes. Quase se podia dizer que a paz chega com o bater do sol por altura da uma hora da tarde…
Nas ruas não se vê vivalma. Corredores e corredores de calçada, sinuosos traços de chão que não se querem pisar.
Mais abaixo um abrir de terra mostra-nos a terra seca e queimada. Cenário este que mais parece saído de um filme do oeste americano, não fosse a presença resistente de um carvalho despido de verdura, mas mesmo assim imponente e fatalmente discordante da ideia de deserto manipulador e implacável. Cá está ele, bem no meio do nosso abrir de terra, a dizer-nos que nada o assusta, nem mesmo o ritmo da música ou o peso do calor.


Nada o derruba, nada o assusta, ergue-se imenso e imponente, pleno no seu domínio.
O ar continua a sufocar-me. De olhos semicerrados, observo aquela que é a minha película pessoal, o meu filme privativo. Tudo porque, para lá das ruas sinuosas, para lá do abrir de chão onde reina o imponente carvalho, para lá da música e do calor, para lá de tudo isto encontra-se o começar de uma hacienda. A propriedade encontra-se encerrada, as portas protegem-na tudo o que lhe é exterior, com a sua fronte silenciosa e liberta de sentimentos.O edifício principal impõe respeito a quem passa. A sua massa branca olha-nos do alto como quem aguarda-se para dar a sentença final.

É o tempo que passa a fugir. É o vento que o segue a toda a velocidade. É o mar que apazigua e que nos deixa esquecer que o tempo já foi.
Dentro do edifício principal, Rúbia continua entregue aos seus afazeres, áquilo que tem vindo a inventar para não enlouquecer de tédio. Dentro de alguns dias irá pensar no acumular do tempo em que esta se mantém dentro da propriedade. O tempo não quis esperar pela Rúbia. Não aguentou que ela se decidisse em casar. Que insolência. Não há respeito por alguém tão nobre de espírito e linhagem? Rúbia olha. Mede as distâncias. Sente o silêncio. Inspira. Respira. Recomeça.
Quem vencerá esta batalha? O carvalho? a Rúbia? O vento? O calor? Aposto na natureza... Ou seremos nós, os vencedores?