sábado, maio 25, 2013

Quanto mais choras…





Mais um que se vai embora… Uma mala em cada mão e lá vai ele a entrar no comboio com destino a Berlim. Sem planos concretos, despediu-se da família e dos amigos. A história repete-se pela milésima vez, não é preciso estarmos aqui a prolongar-nos muito sobre o assunto. Uma vida supostamente mais próspera é o que todos esperam nesta estação. O maior. Sou o maior, pensa ele. Vou ser isto e aquilo. Vou trazer isto e mais isto. Vou mostrar a todos que consigo. Estes pensamentos também são sempre iguais. Os mesmos em todas as casas, aqueles que antecedem a partida. Os dias e as semanas que antecedem a partida. A entrada no comboio, essa, dói que se farta. A partida do comboio connosco lá dentro, essa, vai separar os homens dos “outros”. Aí a minha vida, o que fui eu fazer… e agora para onde vou. Nem sequer falo alemão… O que me deu para meter-me neste filme…
Uma das coisas que mais me chama a atenção é o momento da despedida. Já tive os meus e sei o quanto custam. Muita gente pode achar que é só uma sessão de choradeira mas não é. É uma dor que não tem explicação, e que começa muito antes da dita data de partida. Há quem engula a saliva durante semanas, com um nó na garganta, ao ponto de tremer todo por dentro, apenas para evitar uma lagrimazinha… isto porque se sabe que, se deixamos sair uma, se, por acaso, uma gotinha conseguir sair, então malta preparem-se… É uma cascata de salitre, confissões e frustrações que tão depressa ninguém se vai esquecer. Há quem não arrisque com receio de cancelar os planos todos. Então é pelo melhor engolir, e engolir, e engolir mais uma vez, ao risco de ter um ataque de nervos só para evitar a abertura dos canais.
A despedida na estação é o teste derradeiro á nossa resistência, quem tiver nervos de aço que mande vir mais dois. Normalmente poucos aguentam. Já vi desabafos acontecerem e acabarem á bofetada, já assisti a homenagem a meter músicos á mistura. Já vi gente do oriente com os seus cânticos, rodas e gritos de encorajamento, seguidos de abraços e rodas cerimoniosas. É raro aquele que não explode.
É giro quando se apanha um espertalhaço que resolveu não levar ninguém para a despedida, para evitar este tipo de situações. Esse coitado há de chorar por causa de ver os outros, e depois arrepende-se e começa a querer ligar a toda a gente. Na altura em que viajava com os meus pais não haviam telemóveis, nem tantas formas de contacto como agora, o que tornava essa situação mais aflitiva ainda. O amigo espertalhaço passava então por uma agonia tal que era pior que se tivesse trazido a cidade toda para a despedida. O coitado em vez de explodir, implodia e nesse caso, as marcas são muito mais profundas. E as figurinhas tristes também. Uma festa.
Hoje, sei que é feio mas vou aqui admiti-lo publicamente, sempre que vou viajar, seja de que meio de transporte for, procuro sempre o meu amigo Tarzan, ou o Super-Homem de serviço, aquele que vai passar de herói a florzinha de estufa, acabando derrotadamente sentado no lugar que o destino escolheu para ele, a fungar do nariz e a babar-se…Eu sei que é maldade da minha parte, eu sei…
Talvez seja porque, quando me calhou a mim, e não foram poucas as vezes que tive de me despedir, quando era ainda uma criança, já acordava a chorar, saia de casa a chorar, entrava na estação a chorar, sentava-me no lugar que me estava destinado no comboio, avião ou carro a chorar, e lá acabava por adormecer aos soluços encostado á minha mãe, para acordar algures, horas e quilómetros mais tarde…

quarta-feira, maio 22, 2013

O Sr. Joaquim já esqueceu o seu monólogo

Domingo. 02h30.


Uma alimentação equilibrada! Precisas é de comer como deve ser! Assim tudo direitinho e com juizo… (isto de falar para dentro da nossa cabeça á fácil) E fazer exercício pelo menos três vezes por semana!

- Faz tu, pensa ele para com os seus neurónios…

O pior é quando da cabeça passa para a boca. Quando se começa a exprimir aquilo que o cérebro comanda, em palavras, aí é que começam os problemas. É que não há volta a dar. Há sempre alguém que ouve e que vai registar, para no fim jogar-mo à cara. Mas estes pensamentos também não ocorrem em todas as ocasiões. Este diálogo surge quando estou sem sono, a olhar para o teto … A minha Maria está a dormir e, pelo volume do ressonar, diria que no país das fadas, a festa é rija.

Domingo. 18h45.

O Sr. Joaquim já esqueceu o seu monólogo. Está unido ao sofá de sua sala. Este sofá é oficialmente seu. Lá em casa já se estabeleceram todas as regras e todos os territórios estão devidamente delimitados. Afinal de contas, 17 anos de casamento servem para retirar qualquer dúvida em relação aos pertences de cada um. Há coisas que se partilham, e há coisas que não se partilham. Aquele sofá é dele. A sua Maria, se precisar, tem um cadeirão que a satisfaz plenamente. É ele da mesma qualidade que o seu mestre, visto terem ambos sido adquiridos em conjunto, como mandava o folheto. Calma. Em relação aos pertences e não pertences, poderíamos dedicar uma vida aos detalhes, pelo que fiquemos por aqui. Fiquemos para já pela singela declaração que, naquela casa, o Sr. Joaquim é dono e rei de determinados artigos, tarefas e atitudes, enquanto a sua Maria é proprietária indiscutível de cantos, recantos e segredos mal disfarçados, altares e cúpulas de tudo o resto. O que nos interessa verdadeiramente é a relação entre aquilo que o Sr. Joaquim pensou com os seus neurónios durante a noite, e a pose de rei com que nos brinda (sim porque neste cenário, a nossa posição é de ver tudo sem sermos vistos). Comecemos por elucidar o seguinte: a relação de monopólio que existe entre o nosso herói e o seu pousio também tem a ver com um detalhe técnico, a relativa moldagem do sofá ao seu extremo, extremo esse que já ocupa um belo terço do espaço disponível. Da mesma forma, a curvatura, ou seja a relação cabeça-pés (se podemos chamar áqueles dois currais e os seus dez leitõezinhos - pés) não permite que se consiga uma postura de ângulo reto, sendo que as próprias costas do sofá ganharam uma inclinação do estilo personalizado. O problema também é a barriga, cujo inchaço permite-nos concluir que este homem estava destinado á hibernação, pelo que o seu corpo decidiu armazenar todo o material necessário a uns bons meses de sono. Ele sabe deste problema, mas porquê? Se estava de facto destinado á hibernação, porque raio não conseguiu ele dormir ontem? É simples a resposta Joaquim. Se eu pudesse contactar-te dir-te-ia que a resposta é mesmo muito simples. O facto de não conseguires hibernar é porque estamos… na primavera. Os ursos não dormem na primavera Joaquim…

Existe portanto um dilema que é o facto do mesmo cérebro que, durante a noite, lhe tinha recomendado uma vida acompanhada de água, sopa e fruta, é o mesmo que se congratula pela posição de regalo desfrutada desde as 11h30 da manhã, batata frita, cerveja, e quem sabe se não tenho uma bela surpresa daqui a pouco e a Maria encontra-me um resto de gelado que vou limpar diretamente da caixa á boca, sem passar pela colher. Mmmmmm … Um delírio.

Se o problema, do ponto de vista do Joaquim, é a barriga, os grandes culpados não passam nem por ele, nem pelo sofá, nem pelas batatas, nem pelo possível gelado, nem pela cerveja, nem pelo facto de estar na mesma posição desde que saiu da cama, nem pela sua Maria, nem nada disso… A grande culpada disto tudo é a televisão. É ela que não me deixa fazer nada. Ela sabe como prender-me ao meu umbigo. Ela canta-me canções e conta-me histórias que duram horas e horas, ela mostra-me anúncios de mais batatas, mais cerveja e mais gelados. Ela. Ela. Ela. Uma vadía.

(do sofá surge um urge)

- Mariaaaaaaa!!!! – vai lá ver se não há nada de doce no congelador.

( do quarto um piar com pieira)

- Não há! Comeste o resto ontem.

(a resposta não se faz demorar)

- Não comi tudo não! Vai láaa!!!

(ouve-se um arrastar de correntes, que é como quem diz que a sua Maria estava deitadinha a ler qualquer coisa rosa, e teve de rebolar dali para fora, que é como quem diz outra vez que do quarto á cozinha deve-se passar pela sala, logo teria sido mais fácil que o monstro das bolachas se tivesse dignado a mexer o rabinho, quebrando a corrente sofá-cú. Não vou tentar explicar, porque não há explicação possível, ou melhor, ela há, mas não me quero meter por estes enredos).

Passado uns minutos a sua Maria volta com uma caixa semi-leve de gelado de chocolate com pepitas de chocolate e natas.

- Bem te disse que não tinha comido tudo…

- Toma lá essa merda. E sabes perfeitamente que não me chamo Maria…

quarta-feira, março 06, 2013

Entraram e saíram sem dizer nada

check-in check-out


Entraram e saíram passadas algumas horas. Não deixaram identificação. Pagaram a estadia e o champanhe. Check-in, check-out e acabou. Não desfrutaram do pequeno-almoço, não foram á piscina, não fizeram nenhuma massagem. Para eles foi apenas um quarto. Só mais um, como tantos outros. Mais cedo um hóspede visivelmente alcoolizado tinha jurado ter passado os melhores dias da vida dele. As férias resumiam-se a um ano de trabalho concentrado nestes dias no mesmo hotel, num quarto igualzinho, com a exceção de que seria um dos poucos momentos bons da vida dele, pelo menos durante os próximos 365 dias. Este senhor tinha evidentemente trabalhado o dobro antes de ir de férias, e o dobro iria ter de trabalhar para recuperar o tempo de lazer. Levara os dias a jogar golfe durante o dia, e beber durante a noite, terminando sempre no estado mais lastimoso possível. Conforme a estadia se ia aproximando do fim, o nível de álcool no sangue ia aumentando, crispando no seu rosto o recíproco aumento do mau estar, perante a imagem do regresso. No piso acima um casal queixa-se do barulho dos vizinhos que conversam e vêm televisão com o volume no máximo a noite toda. Este casal faz igualmente questão do seu retiro no Algarve, desta feita mais vezes durante o ano. É o verão, o carnaval a pascoa e o ano novo. Só o Natal, com muita pena, deve ser passado no lugar de origem junto dos seus. Os vizinhos que vêm televisão já têm uma idade avançada. O que acontece é que adormecem cedo e a televisão fica ligada a um volume exagerado, volume esse que não os incomoda mais, primeiro porque se o ouvissem até era mais uma companhia. Os ouvidos já não funcionam já há alguns anos. O ritmo mantém-se porém. O hábito de ser humano leva-os ao mesmo hotel, se possível ao mesmo quarto, ano após ano. O dinheiro entra exatamente na mesma medida e é guardado com a mesma organização desde o primeiro dia que entraram neste local. Não são férias, são recordações, são hábitos associados aquele de acordar de manhã e tomar o pequeno-almoço á mesmíssima hora, com os mesmíssimos ingredientes a cada ano que passa. A noite também passa e faço-me testemunha silenciosa de tudo o que acontece por aqui. Hoje sou aquilo que se chama na gíria hoteleira night, ou night auditor, ou auditor da noite, morcego para os colegas, batman para o ego. Por mim passam corpos e sombras daquilo que eram homens e mulheres de perfeita condição durante o dia. Rostos cansados, alterados, zangados ou perdidos, perante o meu espaço. Sorrio e tento ser simpático, enquanto me protejo de algum jeito mais maldoso que a noite por vezes trás. Estou sozinho mas nunca me sinto só. Faço-me de forte quando faz falta, enquanto tremo de ansiedade perante certas atitudes menos cordiais. Cada qual tem aquilo que merece.

Fecha os olhos...


O cenário é uma estação de comboio. O cheiro é de metal e café. O frio também entra pelas narinas, queimando o asfalto do trato conforme vai passando. Se pararmos de respirar, a dor passa. O desconforto da rua passa a ser o desconforto do interior das carruagens. Metade das pessoas deste local vai para uma migração diária, aquela que os leva ao fim do mês, aquela que é feita por consciência, por obrigação, por tédio e ódio. Por resignação também. Por vezes chega-se a imaginar como teria sido a vida se fôssemos crianças todo o tempo. Como seria o tempo se não existisse ainda a maldade, se não deixássemos fugir esse sentimento e ficássemos agarrados às saias das nossas mães, o desejo de ter uma vida sem responsabilidades nem dores, um lugar próprio sem pressas. Por que raio vim aqui parar, porque está assim o meu destino, que fui eu fazer eu, mas que merda… As linhas sujas deixam passar o vento pela simetria. Sob os arcos, os comboios esperam a iniciativa, burros de carga sem emoção. Cá fora o movimento é constante, sobe, desce, entra, sai. Corre-se sem necessidade. Ainda não sai ninguém daqui. Algumas pessoas vão sumir-se, a partir deste ponto. A partir deste ponto começa um novo conto. Um conto que passa por lá. Um conto que inicia-se nas lágrimas de despedida numa fria e insensível estação de comboio. Malas e sacos, lágrimas e abraços. Famílias inteiras ou apenas o homem da casa, que se vai sem saber bem o que o espera no outro lado da esperança. Estação reles a da despedida, em que tantas vezes sonhei em não entrar. Estações de merda, aquelas que me fizeram sofrer quando era mais novo, criança ainda. Todas elas odeio-as. Recordações para esquecer um dia. Á volta dos comboios simula-se a vida. Vendem-se os jornais, prepara-se o pequeno-almoço, flores, mapas, material de viagem. Tudo misturado confunde e cansa só de olhar. Pede-se dinheiro emprestado, procura-se uma mala perdida. Guardamos as carteiras junto de nós em momentos de aflição. O medo investe sem armadura. Ganhar é perder. Perder-se nesta estação é o início do fim. Todos alerta. De repente ouve-se um grito de alegria. As pessoas encontram-se finalmente, passados tantos dias sem se verem. A estação também tem destas coisas de felicidade. O gelo desaparece por momentos. Abraços ofegantes e beijos e mais beijos. Sorrisos e lágrimas de felicidade. De braço dado, os amores agrupam-se e saem apressadamente deste local. O contacto físico fecha os nossos olhos até chegarmos a outro lado. O lado de fora. Fora desta estação, rumo á próxima viagem.

...mesmo que no fim.

Entrou-me pela calada. Sem avisar. Quando cheguei já estava á minha espera, junto do estacionamento, ao longo de uma fila de carros imóveis, frios mudos. A noite avançava sem indícios de uma mudança no tempo. Pelo menos para mim. No meu íntimo sentia-me de rastos, o meu estado em modo self destruct como se costuma dizer. Do nada fez-se click, dois beijos e os nomes trocados. Um ar disciplinado e sério, contra o ar da derrota e da busca por um porto. Um qualquer. Foi assim que me sinto ao completar aquele dia. A minha bóia de salvação tinha chegado sem mo dizer. Passados anos iria compreender que o mundo afinal ainda se manteria em pé por muito tempo. Passados séculos iria entender que toda a vida depende de um momento. Que poderiam passar milénios sem admitir a minha derrota, nem o meu amor, nem o passar do coração para o outro lado da barreira, a da ilusão de felicidade, a do deserto tropical. Entrou pela calada e calada ficaste enquanto não fui senão abordando assuntos que me pudessem ligar a ti. Ficaste á espera mas não te fiz tardar. Acordei deste vácuo quando te vi pegar na tua lira. O teu momento passou a ser meu e repreendi-me por ter deixado este segundo passar tão depressa. Então fui capaz de pegar no touro e beijá-lo na boca. Enfrentei-o com as palmas das mãos e então consegui esboçar um sorriso. Este sorriso deste-mo tu. No meu deserto recebo este oásis. Aceito-o como meu. Como se fosse perfeito este dia, mesmo que no fim.

O teu lugar Inventado


Lembro-te no ar
Recordo-te nas flores, nas sensações, nas palavras,
O lugar por ti inventado que afinal floresça
Nos nossos corações.

Aqui fica um espaço que nos criaste
Recordamos-te no vazio e no pleno,
O lugar por ti inventado nos guia e ilumina
Orienta-nos neste dom de iludir

Continuas aqui junto de nós
O teu lugar inventado, na nossa dor
Serás sempre nosso, seremos sempre teus
Nesta forma de ilusão que não nos chega
Mas nos engana

Que o lugar que inventaste seja a tua felicidade
 Quer estejas a voar,
a soprar no vento
A vibrar nas cordas do meu bandolim
Ou simplesmente no escuro da noite,

No calor do sol
Nas chuvas de Abril
Caso estejas a sorrir
Caso estejas a sonhar
Por aqui jamais estará tudo bem

Obrigado por teres passado um dia
No encalço da nossa encruzilhada
O caminho é sinuoso,
mas no fim
Estaremos todos e cada um de nós
No nosso lugar inventado.

terça-feira, fevereiro 19, 2013

Voltas à cabeça

2 da manhã… A cidade pena em escurecer, o ar arrefece mas o silêncio tarda a chegar. As luzes dos carros ilumina as faixas que se mantêm firmes no seu filamento. Estou sentado no meu canto de cimento. A janela permite-me espreitar os movimentos no chão. Gosto de ver o colorido das luzes dos edifícios em torno do meu. No ar pus a tocar um som de saxofone em modo downtempo. A cabeça não para de pensar no caso por resolver. Enquanto o ar enche-se de fumo, continuo sem desenrolar o fio do meu novelo. Que caso estranho. Uma mulher na casa dos trinta com tudo para ser feliz acaba no passeio do bairro mais mal afamado desta cidade. Já ninguém acredita em heróis. Ninguém quer saber das desgraças dos outros. É só mais um corpo. Pena ter sido este preciso corpo. A mulher tinha apenas acabado de completar os seus 30 anos, tinha um trabalho de sonho como buyer de moda para uma casa de pronto-a-vestir de renome. Um trabalho duro que ditava o lucro ou não da empresa. Um trabalho que não era para qualquer um e que de modo algum alguém se atreveria a invejar. O salário era bom. O marido melhor ainda. O único filhote com 5 meses… Não tinha sido assalto. Estava tudo intacto em seu torno. Não tinha sido violento. Não tinha sido atropelamento. Não tinha, não tinha… lá estava ela no seu leito junto do passeio da rua mais mal frequentada. A quilómetros da sua casa. O carro continuava em casa. Não havia estação de metro por perto e os taxistas não frequentavam estes lugares… O saxofone dá voltas e voltas, estremece e ensurdece o ar á minha volta. O fumo do meu cigarro contribui para nublar os meus já confusos pensamentos… Sem marcas nem expressão de flagelo encontrei-a no seu leito junto do passeio. Na mão tinha um livro. A Metamorfose de Kafka. Na sua bolsa a carteira tinha todos os documentos, dinheiro. Não encontrei nenhum artigo de cosmética que me deixasse perceber se iria se encontrar com alguém, pelo contrário. Tudo indicava uma tarde de descanso afundada num sofá a ler o seu livrinho. Só faltava aqui era o pijama e um chazinho… Sem modas nem marcas. Sem perfume nem arranjo especial. Parecia adormecida não fosse o facto de se encontrar ali no meio da rua… 3 da manhã... O saxofone deu lugar ao baixo e à bateria. Uma voz feminina demonstra paz e serenidade, enquanto fala de amores mal entendidos, da dor de desamar. Da pele que não aquece junto dos braços pretendidos. Será que era amada? Seria isto o resultado de mais um desentendimento que tão mal fazem aos casais desta cidade? Neste bairro nada me surpreende mais. Os gritos vindos das casas são uma constante. Quase tão constante como as luzes dos veículos que me ofuscam as imagens de vez em quando. Cidade suja e pecadora. Aqui vende-se o corpo por amor à cidade. Aqui a cidade manda nas almas. Exige-lhes a pele sobre os ossos. Esta cidade pede sangue e pede-o constantemente. Os seus cantos mais refundidos anseiam pelo medo. Por vezes algumas ruas passam a ter donos, mas é só fogo de vista. Nesta cidade ninguém manda, Ela é que manda em nós. Implacavelmente. Se quisermos chegar a um acordo com ela, ela suga-nos no seu vácuo. Se tentarmos defender-nos com a violência, ela cega-nos com as suas garras. A cidade não nos deixa em paz por um segundo. Tudo o que sei é que sobrou para esta pobre mulher. Quem és tu cidade para decidir cegamente quem deve e não deve morrer? Não pensas que há gente que poderia estar atrás das tuas grades e que continua à solta, ao sabor do vento? Será isto que te agrada cidade velha? Saber que no fundo o vento é aquilo que mais te dá prazer? Será que se formos todos a favor de vaguear por este mundo sem rumo te tornas mais afável? Agrada-te esta inconstância? Que passemos por ti vezes sem fim? Sem ficar nem regressar tão cedo? Queres-nos feitos nómadas, ó velha cidade? Desamo-te se é isso que desejas…

segunda-feira, fevereiro 18, 2013

Olhei em frente e enchi os pulmões de ar. Repeti o movimento de inspirar fundo e jogar tudo fora. Podia ser que saísse alguma coisa mais. Não saiu. Infelizmente por mais que uma pessoa inspire e expire, o que nos corrói fica agarrado ás paredes dos pulmões como se não houvesse amanhã. Resolvi então acender um cigarro. Se não morres pela saúde, que seja pela pior das vontades. Tirei um destes soldados brancos do maço e encostei-o ao canto da boca. Cheguei aos bolsos das calças e tirei o isqueiro. Inclinei a cabeça, cerrei um dos olhos e juntei as mãos em torno do isqueiro, não fosse a vida querer pregar-lhe uma partida. Assim protegido fi-lo funcionar. À terceira tentativa lá consegui ver a chama. Assim protegida pelas minhas mãos, inclinei a cabeça, cerrei um dos olhos e aproximei-a do meu soldadinho, qual cowboy na sua pradaria de veludo… Acendi-o e puxei por ele. Assim fechei o segundo olho enquanto olhava em torno do meu interior. Cá fora o ar matinal fazia-se duro de integrar, mas quem inspirou por ele tantas vezes não se deixa intimidar. Sobretudo que agora tenho a companhia do meu soldado incandescente. Assim com os olhos fechados, sonhava com a minha pradaria de veludo, com o sol a aquecer-me o coração. Foi de pouca dura a pradaria mas bastam uns segundos para conseguirmos estar noutro lugar. Quando fechamos os olhos, a realidade deixa de ser o nosso porto de abrigo. E é então que a vida corre-nos de feição. O mundo cruza o azul do céu com o calor da nossa alma. E bastam para isso poucos décimos de segundo. É bom. Pode acontecer em qualquer lado. Pode ser entre duas linhas de leitura, um parágrafo de escrita. Meio minuto e já lá estamos. Numa praia da América do sul ou num deserto africano. Num, campo sem fim á vista ou no dorso de um cavalo a cavalgar por um caminho sinuoso… Abri os olhos e voltei á terra. À minha volta tudo parecia tão denso, insensível e implacável. Tudo era de cinza e duro e áspero. Cortante. Afiado. De tremer por dentro. Mas eu não. Não tremo nem vacilo. Estou cá para as curvas. Eu e o meu soldadinho no canto da boca. Eu e o meu esgar noutra realidade. Eu e a minha pradaria de veludo. Sei que não é aquele o meu mundo. É apenas uma fantasia. Mas a verdade é que, de olhos abertos, chego muitas vezes à conclusão que este também não é o meu mundo. Este lugar não me aquece nem me arrefece. Não me traz brilho nem me faz vibrar. Mas também não me assusta. Estamos cá para as curvas o meu soldadinho e eu. Venha quem vier. Qualquer coisa e fecho os olhos…

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Clídio - Cli para os amigos - entra no autocarro com destino ao trabalho. O seu nome é Euclídio mas ele detesta usá-lo desta forma. Detesta o seu nome de batismo como se da vida dependesse. Então fica Clídio. O autocarro está cheio de caras sem nome, sem expressões de valor. Caras mudas e pobres de espírito. Qualquer uma destas caras tem um nome melhor que o meu, pensa ele para os seus botões. Um nome de gente normal. Gente que vai ao café e ao banco e que se chama simplesmente Manuel ou Joaquim ou Maria ou Paula. Gente que não se pesa pela denúncia de um nome que o tempo já esqueceu. Nome de século XIX, de soldado da primeira guerra – Euclidio Tomar morreu na batalha de Verdun”, de trajeto espacial dos anos sessenta – O caminho das estrelas é Euclídio, nome de anúncio publicitário retro, com as vozes bem colocadas Euclídio lava os dentes com a pasta Clinim… Até o condutor do autocarro, com mais 30 anos que ele, deve chamar-se qualquer coisa como Manuel Normal Martins e não Euclídio Munar… Hoje o autocarro ainda não arrancou. Continua gente a entrar. Teve sorte o Clídio, conseguiu um lugar sentado na penúltima fila, aquela em que as pessoas de idade não se atrevem a tentar chegar, com medo que a máquina arranque a meio do trajeto por um lugar sentado. Qualquer abanico e estaria o caldo entornado. Desta feita é mais fácil aguentar um pouco agarrado aos corrimões enquanto se espera por uma alma que se digne a ceder o seu lugar. Clídio conhece-os como ninguém. Cruza-se com eles ao sair de casa. Vê-os nos transportes públicos. Nos bancos de jardim. Mais tarde irá lidar com eles no lugar onde trabalha. Conhece-lhes as manhas e as necessidades. Gosta dos seus gestos lentos. Sente pena das suas angústias. Inveja-lhes a facilidade como se desprendem do mundo, para um mundo só deles. Por vezes até se ri das suas teimosias, da forma como alguns vêem a vida e criam um cenário cheio de certezas. No lar onde trabalha, os idosos recebem-no com cortesia. Alguns chegam mesmo a apreciar a sua pessoa. O modo como vai ao encontro aos seus estados de espírito, sempre com alegria, agrada-lhes. Nem tudo são rosas, e por vezes tem de assumir uma postura mais firme, no entanto acaba sempre por conseguir um bom entendimento, mesmo que leve com algum resmungar… Ironicamente, quando se diz que a primeira impressão é a mais forte, é precisamente aquando das apresentações que o Clídio sabe que tem a vantagem em relação aos outros… Bom dia e bem-vindo à sua casa nova. Aqui estamos todos disponíveis para ajudar a sua adaptação. Vai correr tudo bem… É aqui que vai ficar… E qual o seu nome meu rapaz? Bem, o meu nome é Euclidio, mas pode tratar-me por Clídio… Euclídio? Sim Euclídio. Euclídio Munar… Esse nome não é do seu tempo meu rapaz… (risos)

domingo, fevereiro 17, 2013

barreira da luz

Correr, correr, correr. Espernear. dar pontapés e mexer os braços. Respirar a alta velocidade. Amar sem nexo. Bater as asas. Prego a fundo. Fumar, beber e ir de contra mão. Prego a fundo. Velocidade. Saltar de um planalto. Levar tudo ao limite da dor. Atingir o máximo. Cair e levantar. Correr. Correr e seguir em frente. Embater nos muros e derrubá-los em seguida. Conhecer toda a gente. Falar, tocar, entrar em todos. Não falar apenas mas dizer aquilo que interessa. Falar com interesse e inteligência. Tocar, tocar, tocar. Tocar nas almas. Tocar nos corações. Tocar a ritmo desenfreado. Tocar e aplaudir quem toca. Escrever e ler. Escrever mais do que ler. Tocar mais do que ouvir. Tocar com o volume no máximo. Correr mais do que ver. Falar mais do que perder. Matar quem perde tempo. Matar na nossa alma. Não dormir. Não descansar. Não vergar. Não baixar nunca a cabeça perante a falta de vida. Não ver tv. Não jogar com a vida. Nem jogar com os joguinhos da treta. Não postar para inglês ver. Não consumir lixo nem vício. Não aplaudir aquilo que nos tentam vender. Não falar disso sequer. Não viver a vida dos outros. Não estupidificar. Não viver das opiniões dos outros. Não emparvecer. Correr. Correr com a ignorância. Correr e viajar. Viajar pelo mundo. Vaguear. Ser-se vagabundo. Viajar nos livros. Ser-se ladrão. Espernear. Bater os pés e fazer barulho. Muito barulho. Rasgar e partir. Sair de si. Sair e voar. Voar a alta velocidade. Ser e querer ser mais e mais e mais. É isso filhote. É isso…