O Senhor Flores está sentado na sua cama. O sono recusou-se, mais uma vez, a visitá-lo. A noite vai a meio. A meio do quê? Se o meio da noite mais parece um poço sem água faz séculos... Séculos de minutos. Séculos de paredes do quarto, cujas curvas, as sombras, as rachas já são mais do que família... Hoje invadiu-o a inquietação. Hoje o seu espírito resolve ruir. O estômago d'outrora já não cai na conversa da coragem. A garganta cerra os punhos. Os punhos gelam-lhe os pés. O frio cola-se. Uma lapa este frio. Flores não se mexe. Não ousa. Fecha-se por dentro. Treme e encolhe-se. Tenta pensar em minimizar os gestos. Os gastos. Não olhes para o relógio, pensa ele. Tudo passa, até o tempo, até a noite um dia... Desta vez tudo parece ir ao seu desencontro. Muitos algos que não fazem sentido. Até o ar não parece girar no sentido habitual. Todos os algos sussuram. Os sons desconfortam-no em sintonia.
Hoje vai-te abaixo meu cabrão.
terça-feira, fevereiro 04, 2014
Quando o calor aperta
A música é lânguida. Arrasta-se como se tivesse uma corrente
presa nos pés, cadeados de ferro a sulcar o chão. O ar quente sufoca-me e
deixa-me mais lento ainda. O ritmo hoje também abranda os corpos que passam por
mim. Hoje quem tem ódios teve mesmo de pô-los de lado, afim de sobreviver a
este dia. Está demasiado calor para a guerra. Hoje quem tem amor deve abrandar
o ritmo. O calor tem destas coisas. Amena o bem e o mal. A música recusa-se a
ultrapassar os limites da temperatura. Até ela sente o peso de um dia destes.
Quase se podia dizer que a paz chega com o bater do sol por altura da uma hora
da tarde…
Nas ruas não se vê vivalma. Corredores e corredores de
calçada, sinuosos traços de chão que não se querem pisar.
Mais abaixo um abrir de terra mostra-nos a terra seca e
queimada. Cenário este que mais parece saído de um filme do oeste americano,
não fosse a presença resistente de um carvalho despido de verdura, mas mesmo
assim imponente e fatalmente discordante da ideia de deserto manipulador e implacável.
Cá está ele, bem no meio do nosso abrir de terra, a dizer-nos que nada o
assusta, nem mesmo o ritmo da música ou o peso do calor.
Nada o derruba, nada o assusta, ergue-se imenso e imponente,
pleno no seu domínio.
O ar continua a sufocar-me. De olhos semicerrados, observo
aquela que é a minha película pessoal, o meu filme privativo. Tudo porque, para
lá das ruas sinuosas, para lá do abrir de chão onde reina o imponente carvalho,
para lá da música e do calor, para lá de tudo isto encontra-se o começar de uma hacienda. A propriedade encontra-se encerrada, as portas
protegem-na tudo o que lhe é exterior, com a sua fronte silenciosa e liberta de sentimentos.O edifício principal impõe respeito a quem passa. A sua massa branca olha-nos do alto como quem aguarda-se para dar a sentença final.
É o tempo que passa a fugir. É o vento que o segue a toda a velocidade. É o mar que apazigua e que nos deixa esquecer que o tempo já foi.
Dentro do edifício principal, Rúbia continua entregue aos seus afazeres, áquilo que tem vindo a inventar para não enlouquecer de tédio. Dentro de alguns dias irá pensar no acumular do tempo em que esta se mantém dentro da propriedade. O tempo não quis esperar pela Rúbia. Não aguentou que ela se decidisse em casar. Que insolência. Não há respeito por alguém tão nobre de espírito e linhagem? Rúbia olha. Mede as distâncias. Sente o silêncio. Inspira. Respira. Recomeça.
Quem vencerá esta batalha? O carvalho? a Rúbia? O vento? O calor? Aposto na natureza... Ou seremos nós, os vencedores?
É o tempo que passa a fugir. É o vento que o segue a toda a velocidade. É o mar que apazigua e que nos deixa esquecer que o tempo já foi.
Dentro do edifício principal, Rúbia continua entregue aos seus afazeres, áquilo que tem vindo a inventar para não enlouquecer de tédio. Dentro de alguns dias irá pensar no acumular do tempo em que esta se mantém dentro da propriedade. O tempo não quis esperar pela Rúbia. Não aguentou que ela se decidisse em casar. Que insolência. Não há respeito por alguém tão nobre de espírito e linhagem? Rúbia olha. Mede as distâncias. Sente o silêncio. Inspira. Respira. Recomeça.
Quem vencerá esta batalha? O carvalho? a Rúbia? O vento? O calor? Aposto na natureza... Ou seremos nós, os vencedores?
sexta-feira, junho 28, 2013
A Senhora Rosa voou. Saiu
de um lugar para outro, pelas nuvens, pelo vento, pelo ar.
Abriu as suas asas e foi para a zona quente do mundo. Apontou para
onde o calor a chamava, qual ave migratória, em busca do sol
nascente. Levou com ela, a Senhora Rosa, os sonhos daqueles que
ficaram. É sempre assim para quem vê o rasto do caminho
a desenhar o seu trajeto. Sobretudo para aqueles que nunca tiveram a
sorte ou a coragem de sair do seu lugar encantado. Os voos alheios
enchem-nos de porquês e de desejos transformados na acção
dos outros. Os que fogem de casa, os que mudam de vida, de país,
todos eles enchem os nossos corações de imagens e
formas que nem sempre correspondem à realidade. Desses sonhos
chegam a nascer autênticas lendas vivas. Os mitos vêm das
vontades. A Senhora Rosa vai ao encontro do encontro. Leva uma mala
no porão, um livro na mão e uma flor no cabelo. Leva
uma vontade misturada de desejo e anseio, tristeza e alegria.
Cá em baixo vemos
um risco no céu e pensamo-lo cheio de cores e sabores de
outras regiões. Vemos o sol mais próximo desse mesmo
rasgo e achamos que por lá a vida é melhor, mais
quente, mais colorida.
Lá em cima a
Senhora Flor mexe no cabelo, contorce os dedos. Olha para o livro sem
o ver. Toca na flor que leva no cabelo. A ansiedade da partida, com
toda a rotina do despedimento, é substituída pela
mistura explosiva do reencontro, por parte daqueles que ansiosamente
a esperam. No meio fica o único momento em que se respira.
Momento esse que pode durar ou não. A ilusão da calma
paralisa-se no ínfimo instante que passa entre estes dois períodos, num misto de dor e de paz, ou melhor, paz entre as dores.
Nós, comuns
observadores temos uma visão que nos provoca inveja. Olhamos e
louvamos a ideia de viagem. Gostamos de nos despedir e fazer questão
de demonstrar um pesar pela importância da partida. A chegada,
essa tem igualmente sabor a braço de ferro vencido, que é
preciso marcar com urros e abraços. A festa é rija
quando se chega ao destino, trabalho hercúleo este.
Já para nós,
viajantes, é mais uma forma de sair de um lugar e chegar a
outro. Temos de levar com os festejos que nem sempre são o
resultado das nossas emoções. Um porto. Um destino
forçado por vezes. Uma lenda de vontade. Nem todas as viagens
são de lazer, de aventura, de paixão pelas imagens,
pelas fotos do mar e da praia. As colinas verdejantes não
nascem dos aeroportos. Nascem dos olhos de quem fica e vê nos
aeroportos o caminho da vida selvagem.
Em breve o avião
prepara-se para pousar.
Tem calma Senhora Rosa. Respira fundo.
Aclara a garganta. Vai correr tudo bem. Deste lado alguém te
ama. E do outro também.
No meio está o vazio
O Sr. Flores sente-se
vazio no meio do vazio. O nada no nada, o repetir no interior de uma partícula de si próprio, que, por mais pequena que lhe
semelhe, acaba ser a maior de todas as não presenças do
seu ser. Sente o peso do invisível, a falta pela falta, o
desaparecimento pela ausência que se avizinha. É isso o
vazio. A ausência. A dor da falta de alguma coisa que até
podia ser aqui transparecida, mas não tiraria por isso o
sentido á sensação. O Sr. Flores sente uma bola
de sabão no lugar do estômago. Sente que pesa menos 10
quilos, O oposto dos abdominais. O Sr. Flores sente o os
"nãobdominais". O dia passa por ele como o vento
passa pelas montanhas. Apenas passa enquanto o seu olhar mantém-se
á velocidade cruzeiro de uma sombra. O movimento das ruas em
seu redor não se faz esperar. Os carros passam à mesma
velocidade estonteante, enquanto os transeuntes fazem o possível
para sentir que nada é em vão. Ao longe os semáforos
vão controlando os avanços e recuos da sociedade,
enquanto os negócios e outras amostras de trocas se preparam
para enfrentar o dia. O Sr. Flores passa por eles, qual espectro,
qual sombra, qual torre do relógio que vê tudo sem se
manifestar, apenas manifestando a cor das suas janelas, indiferente a
quem nasça ou morra. O Sr. Flores sente o desaparecimento como
quem sente a faca a entrar pela garganta abaixo. Ele sofre o mal dos
males. Ele sente ausência.
O Sr. Flores não
é, no entanto um desgraçado, um triste, um sem sentido.
O Sr. Flores é um privilegiado. Só ele o sabe, só
ele o compreende, ele mais uns poucos neste mundo. Os loucos como ele
que enlouqueceram e que sentem a ausência da loucura. Aqueles
que escolheram repetir a felicidade milhares de vezes no seu
interior, desaparecendo a cada segundo multiplicado, voando desta
vida, tornando-se invisíveis aos olhos da camada rochosa do
nosso planeta,e das pessoas que o pisam, sem saber o que estão
a perder. A intensidade da contração muscular, a
pressão do puro prazer, o esforço que nos sai das
entranhas, tudo isso tem um lado B, aquele que nos retira parte dos
órgãos e nos deixam secos, encovados, á beira da
extinção. No entanto, prontos para reviver ao expoente
máximo tudo aquilo que nos abrigou da demência,
roçando-a com delícia. O Sr. Flores não é
de lamentar. O Sr. Flores encontrou aquilo que pensava não
existir. E recebeu-o de braços abertos, enquanto se foi desvairando até se desfazer no pó do universo. E o
Universo? Esse vai desfazê-lo sem dó nem piedade. Esse
vagabundo das estrelas vai desmontar toda e cada partícula do
Sr. Flores, numa vã tentativa de descobrir de onde vem o
prazer. Esse Universo vai atuar da forma que apenas ele sabe, não
pela força que nos traz a natureza, mas por inveja do Sr. Flores. Pura inveja caro Universo. As tuas estrelas todas juntas
não chegam aos calcanhares do vazio do Sr. Flores.
Embrulha.
Deitamo-nos tarde
Há quem queira
sair daqui, de foice na mão. Há quem saiba que lá
fora é tarde e a noite não se explica sempre que entra,
sem ser de rompante. Aproxima-se e impõe-se. Instala-se e
cumpre o seu dever, a sua promessa. Há quem chame a noite
pelas entranhas do seu âmago na esperança de ver uma luz
que entre na alma sempre que o sol se põe. Há quem se
esprema lá em baixo, ao olhar de quem está confinado ao
seu quadrado de vida, metros mais acima, vomitando num esgar de
curiosidade e prazer, perante a falta de ar da vida, o languir do
tempo que passa... lá fora, nas valas e nos passeios, anda
gente que parece precisar de encontrar qualquer coisa que deixe de
ser e passe a fazer sentido. Todos procuram o mesmo sem esperança
de o encontrar... alguém já o levou e não nos
deixou nada. Pelo menos é o que tentamos fazer crer. Andamos
de cabeça erguida á espera que a esperança se
digne a cuspir-nos em cima... ou não. É o que tentamos
fazer crer...
Ou não. Não.
E Não. E Não. NÃO!
Não para ti
esperança ilusória. Não para ti especulação
de felicidade. Estamos cá e respiramos o teu ar ao rir-te na
cara. Não te procuramos mas sim fugimos de ti sem medo nem
pestanejo. Não estás paciência... nós
estamos. Que o saibas de uma vez por todas. Somos na imperfeição.
Deitamo-nos tarde e regressamos na noite seguinte. Por aqui tudo se
faz do nada. Por aqui alguém ama, alguém mata, alguém
foge. Alguém fica a ver e refugia-se naquilo que deveria ter
feito. Todos o sentem e o reproduzem vezes sem fim, repetindo a dor,
repetindo o prazer, repetindo a repetição.
Não para ti
felicidade. És filha do engano. És filha da puta. És
filha do homem com “h” pequeno. Aquele homem mais homem que já
alguma vez conheceste. Aquele que mente, aquele que engana, aquele
que vibra na sombra e na sabedoria da vida.
Felicidade não nos
assombres. Somos homens e não imagens do fim. Festejamos no
limite da compreensão e amamos como se não houvesse
amanhã. Impingimo-nos no extremo das nossas forças.
Somos agressivos e esfomeados. Somos mais que tu alguma vez pensaste
respirar. Odiamo-nos e temos orgulho nisso. Felicidade, cara amiga,
enviar-te-emos flores no teu funeral. Por aqui deitamo-nos tarde.
muito tarde.
Somewhere under the rainbow
O sol passou a sua luz
pela densa humidade, dividindo-se pelas sete cores que compõe
a luz branca. Luz. Branca. Sete Cores.
Cá em baixo, a
Senhora Íris já se apercebeu do fenómeno. Olha
sem ver. Pensa que se sente só. Sente-se só apesar dos
gritos que vão ecoando da sala. O resto da família
discute, entrando no espaço pessoal de cada um, até
faiscar. Se é que exista tal coisa, numa família, como
um espaço pessoal assim tão grande. Afinal, família
é sinal de espaço de manobra limitado, partilhado por
todos e em todos. Quando as coisas vão mal a ofensa entra
forte, a chamada baixaria está de serviço, até
mesmo no interior de uma família.
A Senhora Íris não
tem esse direito sequer. Não se pode dar ao luxo de opinar
sobretudo durante uma guerra. Tem o direito a ter a mesa pronta para
todos comerem, tem o direito de ter a casa limpa e arrumada, pode até
ser criada de todos, e ver a novela na televisão da cozinha.
Na sala todos querem ter
razão. O chefe de família á beira da reforma, os
dois filhos desempregados, as respetivas esposas, uma criança.
Todos lá moram. Todos lá comem. Todos esperam ser
servidos. Todos acham que são os maiores, que têm sempre
razão, não têm culpa em não ter nada, têm
razão em merecer apoios, têm a obrigação
de palmadas nas costas, de empatia, de mérito. Só
ninguém consegue explicar porquê. Então culpa-se
o próximo e alimentamo-nos dessa mesma culpa. Mais cedo ou
mais tarde, o próximo estará mesmo ao nosso lado, e
conhecendo-nos tão bem como o conhecemos a ele.
A senhora Íris
congelou o olhar no topo do edifício oposto, junto da linha
que o une ao céu. Mesmo por baixo do arco-íris. Daí
sonha com outros lugares e aguarda a sua vez, a sua vez de voar, como
o azul do céu que tudo explora, tudo conhece, a sua vez de ver
coisas novas, gente nova com sorrisos em vez de opiniões…
Assim vai pensando, até quando, um dia, será que
amanhã, será que para a semana? Até quando?
Então Senhora Íris, não sabes que vais sonhando
apenas até chegar a hora em que terás de levantar a
mesa? Afinal como não possuis os estudos dos outros, é
natural que te caibam essas tarefas, tantas vezes to disseram as tuas
noras. Elas sim estudaram e merecem um estatuto ao seu nível.
Um trabalho ao seu nível. Um salário estrondosamente
válido para as suas capacidades. Tudo aquilo que não se
enquadrar nestes parâmetros não serve. Ela gostava que
lhe dissessem outras coisas. Poderiam conversar com ela um bocadinho.
Gostava que lhe dissessem qualquer coisa de bonito. Só de vez
em quando. Era simpático da parte de todos deles. Coitados.
Não estão para isso. Este país não ajuda
ninguém. Coitados dos meus filhos, dias a fio sentados a olhar
um pró outro, lá na sala… E a criança, o que
vai ser dela? O pior, Senhora Íris, o mal é seres uma
querida. É tentares agradar. É fazeres tudo por amor.
Neste caso Senhora Íris, o amor não ajuda…
No edifício onde
ela pousa o olhar encontram-se várias janelas com as suas
persianas abertas. Também aí há gente à
mesa. Também aí vivem famílias. Por vezes
consegue vislumbrar um vulto a passar por uma dessas janelas, e logo
inventa um cenário, uma telenovela, uma história. Hoje
sente-se um pouco só. Falta-lhe a coragem para inventar seja o
que for...
5-4-3-2-1... descida
abrupta à terra....
- Mãe!!! A sério
que é isto que queres que a gente coma?
sábado, maio 25, 2013
Quanto mais choras…
Mais um que se vai embora… Uma
mala em cada mão e lá vai ele a entrar no comboio com destino a Berlim. Sem
planos concretos, despediu-se da família e dos amigos. A história repete-se
pela milésima vez, não é preciso estarmos aqui a prolongar-nos muito sobre o
assunto. Uma vida supostamente mais próspera é o que todos esperam nesta
estação. O maior. Sou o maior, pensa ele. Vou ser isto e aquilo. Vou trazer
isto e mais isto. Vou mostrar a todos que consigo. Estes pensamentos também são
sempre iguais. Os mesmos em todas as casas, aqueles que antecedem a partida. Os
dias e as semanas que antecedem a partida. A entrada no comboio, essa, dói que
se farta. A partida do comboio connosco lá dentro, essa, vai separar os homens
dos “outros”. Aí a minha vida, o que fui eu fazer… e agora para onde vou. Nem
sequer falo alemão… O que me deu para meter-me neste filme…
Uma das coisas que mais me chama
a atenção é o momento da despedida. Já tive os meus e sei o quanto custam.
Muita gente pode achar que é só uma sessão de choradeira mas não é. É uma dor
que não tem explicação, e que começa muito antes da dita data de partida. Há
quem engula a saliva durante semanas, com um nó na garganta, ao ponto de tremer
todo por dentro, apenas para evitar uma lagrimazinha… isto porque se sabe que,
se deixamos sair uma, se, por acaso, uma gotinha conseguir sair, então malta
preparem-se… É uma cascata de salitre, confissões e frustrações que tão
depressa ninguém se vai esquecer. Há quem não arrisque com receio de cancelar os
planos todos. Então é pelo melhor engolir, e engolir, e engolir mais uma vez,
ao risco de ter um ataque de nervos só para evitar a abertura dos canais.
A despedida na estação é o teste
derradeiro á nossa resistência, quem tiver nervos de aço que mande vir mais
dois. Normalmente poucos aguentam. Já vi desabafos acontecerem e acabarem á
bofetada, já assisti a homenagem a meter músicos á mistura. Já vi gente do
oriente com os seus cânticos, rodas e gritos de encorajamento, seguidos de
abraços e rodas cerimoniosas. É raro aquele que não explode.
É giro quando se apanha um
espertalhaço que resolveu não levar ninguém para a despedida, para evitar este
tipo de situações. Esse coitado há de chorar por causa de ver os outros, e
depois arrepende-se e começa a querer ligar a toda a gente. Na altura em que
viajava com os meus pais não haviam telemóveis, nem tantas formas de contacto
como agora, o que tornava essa situação mais aflitiva ainda. O amigo
espertalhaço passava então por uma agonia tal que era pior que se tivesse
trazido a cidade toda para a despedida. O coitado em vez de explodir, implodia
e nesse caso, as marcas são muito mais profundas. E as figurinhas tristes
também. Uma festa.
Hoje, sei que é feio mas vou aqui
admiti-lo publicamente, sempre que vou viajar, seja de que meio de transporte
for, procuro sempre o meu amigo Tarzan, ou o Super-Homem de serviço, aquele que
vai passar de herói a florzinha de estufa, acabando derrotadamente sentado no
lugar que o destino escolheu para ele, a fungar do nariz e a babar-se…Eu sei
que é maldade da minha parte, eu sei…
Talvez seja porque, quando me calhou
a mim, e não foram poucas as vezes que tive de me despedir, quando era ainda
uma criança, já acordava a chorar, saia de casa a chorar, entrava na estação a
chorar, sentava-me no lugar que me estava destinado no comboio, avião ou carro a
chorar, e lá acabava por adormecer aos soluços encostado á minha mãe, para
acordar algures, horas e quilómetros mais tarde…
quarta-feira, maio 22, 2013
O Sr. Joaquim já esqueceu o seu monólogo
Domingo. 02h30.
Uma alimentação equilibrada! Precisas é de comer como deve ser! Assim tudo direitinho e com juizo… (isto de falar para dentro da nossa cabeça á fácil) E fazer exercício pelo menos três vezes por semana!
- Faz tu, pensa ele para com os seus neurónios…
O pior é quando da cabeça passa para a boca. Quando se começa a exprimir aquilo que o cérebro comanda, em palavras, aí é que começam os problemas. É que não há volta a dar. Há sempre alguém que ouve e que vai registar, para no fim jogar-mo à cara. Mas estes pensamentos também não ocorrem em todas as ocasiões. Este diálogo surge quando estou sem sono, a olhar para o teto … A minha Maria está a dormir e, pelo volume do ressonar, diria que no país das fadas, a festa é rija.
Domingo. 18h45.
O Sr. Joaquim já esqueceu o seu monólogo. Está unido ao sofá de sua sala. Este sofá é oficialmente seu. Lá em casa já se estabeleceram todas as regras e todos os territórios estão devidamente delimitados. Afinal de contas, 17 anos de casamento servem para retirar qualquer dúvida em relação aos pertences de cada um. Há coisas que se partilham, e há coisas que não se partilham. Aquele sofá é dele. A sua Maria, se precisar, tem um cadeirão que a satisfaz plenamente. É ele da mesma qualidade que o seu mestre, visto terem ambos sido adquiridos em conjunto, como mandava o folheto. Calma. Em relação aos pertences e não pertences, poderíamos dedicar uma vida aos detalhes, pelo que fiquemos por aqui. Fiquemos para já pela singela declaração que, naquela casa, o Sr. Joaquim é dono e rei de determinados artigos, tarefas e atitudes, enquanto a sua Maria é proprietária indiscutível de cantos, recantos e segredos mal disfarçados, altares e cúpulas de tudo o resto. O que nos interessa verdadeiramente é a relação entre aquilo que o Sr. Joaquim pensou com os seus neurónios durante a noite, e a pose de rei com que nos brinda (sim porque neste cenário, a nossa posição é de ver tudo sem sermos vistos). Comecemos por elucidar o seguinte: a relação de monopólio que existe entre o nosso herói e o seu pousio também tem a ver com um detalhe técnico, a relativa moldagem do sofá ao seu extremo, extremo esse que já ocupa um belo terço do espaço disponível. Da mesma forma, a curvatura, ou seja a relação cabeça-pés (se podemos chamar áqueles dois currais e os seus dez leitõezinhos - pés) não permite que se consiga uma postura de ângulo reto, sendo que as próprias costas do sofá ganharam uma inclinação do estilo personalizado. O problema também é a barriga, cujo inchaço permite-nos concluir que este homem estava destinado á hibernação, pelo que o seu corpo decidiu armazenar todo o material necessário a uns bons meses de sono. Ele sabe deste problema, mas porquê? Se estava de facto destinado á hibernação, porque raio não conseguiu ele dormir ontem? É simples a resposta Joaquim. Se eu pudesse contactar-te dir-te-ia que a resposta é mesmo muito simples. O facto de não conseguires hibernar é porque estamos… na primavera. Os ursos não dormem na primavera Joaquim…
Existe portanto um dilema que é o facto do mesmo cérebro que, durante a noite, lhe tinha recomendado uma vida acompanhada de água, sopa e fruta, é o mesmo que se congratula pela posição de regalo desfrutada desde as 11h30 da manhã, batata frita, cerveja, e quem sabe se não tenho uma bela surpresa daqui a pouco e a Maria encontra-me um resto de gelado que vou limpar diretamente da caixa á boca, sem passar pela colher. Mmmmmm … Um delírio.
Se o problema, do ponto de vista do Joaquim, é a barriga, os grandes culpados não passam nem por ele, nem pelo sofá, nem pelas batatas, nem pelo possível gelado, nem pela cerveja, nem pelo facto de estar na mesma posição desde que saiu da cama, nem pela sua Maria, nem nada disso… A grande culpada disto tudo é a televisão. É ela que não me deixa fazer nada. Ela sabe como prender-me ao meu umbigo. Ela canta-me canções e conta-me histórias que duram horas e horas, ela mostra-me anúncios de mais batatas, mais cerveja e mais gelados. Ela. Ela. Ela. Uma vadía.
(do sofá surge um urge)
- Mariaaaaaaa!!!! – vai lá ver se não há nada de doce no congelador.
( do quarto um piar com pieira)
- Não há! Comeste o resto ontem.
(a resposta não se faz demorar)
- Não comi tudo não! Vai láaa!!!
(ouve-se um arrastar de correntes, que é como quem diz que a sua Maria estava deitadinha a ler qualquer coisa rosa, e teve de rebolar dali para fora, que é como quem diz outra vez que do quarto á cozinha deve-se passar pela sala, logo teria sido mais fácil que o monstro das bolachas se tivesse dignado a mexer o rabinho, quebrando a corrente sofá-cú. Não vou tentar explicar, porque não há explicação possível, ou melhor, ela há, mas não me quero meter por estes enredos).
Passado uns minutos a sua Maria volta com uma caixa semi-leve de gelado de chocolate com pepitas de chocolate e natas.
- Bem te disse que não tinha comido tudo…
- Toma lá essa merda. E sabes perfeitamente que não me chamo Maria…
Uma alimentação equilibrada! Precisas é de comer como deve ser! Assim tudo direitinho e com juizo… (isto de falar para dentro da nossa cabeça á fácil) E fazer exercício pelo menos três vezes por semana!
- Faz tu, pensa ele para com os seus neurónios…
O pior é quando da cabeça passa para a boca. Quando se começa a exprimir aquilo que o cérebro comanda, em palavras, aí é que começam os problemas. É que não há volta a dar. Há sempre alguém que ouve e que vai registar, para no fim jogar-mo à cara. Mas estes pensamentos também não ocorrem em todas as ocasiões. Este diálogo surge quando estou sem sono, a olhar para o teto … A minha Maria está a dormir e, pelo volume do ressonar, diria que no país das fadas, a festa é rija.
Domingo. 18h45.
O Sr. Joaquim já esqueceu o seu monólogo. Está unido ao sofá de sua sala. Este sofá é oficialmente seu. Lá em casa já se estabeleceram todas as regras e todos os territórios estão devidamente delimitados. Afinal de contas, 17 anos de casamento servem para retirar qualquer dúvida em relação aos pertences de cada um. Há coisas que se partilham, e há coisas que não se partilham. Aquele sofá é dele. A sua Maria, se precisar, tem um cadeirão que a satisfaz plenamente. É ele da mesma qualidade que o seu mestre, visto terem ambos sido adquiridos em conjunto, como mandava o folheto. Calma. Em relação aos pertences e não pertences, poderíamos dedicar uma vida aos detalhes, pelo que fiquemos por aqui. Fiquemos para já pela singela declaração que, naquela casa, o Sr. Joaquim é dono e rei de determinados artigos, tarefas e atitudes, enquanto a sua Maria é proprietária indiscutível de cantos, recantos e segredos mal disfarçados, altares e cúpulas de tudo o resto. O que nos interessa verdadeiramente é a relação entre aquilo que o Sr. Joaquim pensou com os seus neurónios durante a noite, e a pose de rei com que nos brinda (sim porque neste cenário, a nossa posição é de ver tudo sem sermos vistos). Comecemos por elucidar o seguinte: a relação de monopólio que existe entre o nosso herói e o seu pousio também tem a ver com um detalhe técnico, a relativa moldagem do sofá ao seu extremo, extremo esse que já ocupa um belo terço do espaço disponível. Da mesma forma, a curvatura, ou seja a relação cabeça-pés (se podemos chamar áqueles dois currais e os seus dez leitõezinhos - pés) não permite que se consiga uma postura de ângulo reto, sendo que as próprias costas do sofá ganharam uma inclinação do estilo personalizado. O problema também é a barriga, cujo inchaço permite-nos concluir que este homem estava destinado á hibernação, pelo que o seu corpo decidiu armazenar todo o material necessário a uns bons meses de sono. Ele sabe deste problema, mas porquê? Se estava de facto destinado á hibernação, porque raio não conseguiu ele dormir ontem? É simples a resposta Joaquim. Se eu pudesse contactar-te dir-te-ia que a resposta é mesmo muito simples. O facto de não conseguires hibernar é porque estamos… na primavera. Os ursos não dormem na primavera Joaquim…
Existe portanto um dilema que é o facto do mesmo cérebro que, durante a noite, lhe tinha recomendado uma vida acompanhada de água, sopa e fruta, é o mesmo que se congratula pela posição de regalo desfrutada desde as 11h30 da manhã, batata frita, cerveja, e quem sabe se não tenho uma bela surpresa daqui a pouco e a Maria encontra-me um resto de gelado que vou limpar diretamente da caixa á boca, sem passar pela colher. Mmmmmm … Um delírio.
Se o problema, do ponto de vista do Joaquim, é a barriga, os grandes culpados não passam nem por ele, nem pelo sofá, nem pelas batatas, nem pelo possível gelado, nem pela cerveja, nem pelo facto de estar na mesma posição desde que saiu da cama, nem pela sua Maria, nem nada disso… A grande culpada disto tudo é a televisão. É ela que não me deixa fazer nada. Ela sabe como prender-me ao meu umbigo. Ela canta-me canções e conta-me histórias que duram horas e horas, ela mostra-me anúncios de mais batatas, mais cerveja e mais gelados. Ela. Ela. Ela. Uma vadía.
(do sofá surge um urge)
- Mariaaaaaaa!!!! – vai lá ver se não há nada de doce no congelador.
( do quarto um piar com pieira)
- Não há! Comeste o resto ontem.
(a resposta não se faz demorar)
- Não comi tudo não! Vai láaa!!!
(ouve-se um arrastar de correntes, que é como quem diz que a sua Maria estava deitadinha a ler qualquer coisa rosa, e teve de rebolar dali para fora, que é como quem diz outra vez que do quarto á cozinha deve-se passar pela sala, logo teria sido mais fácil que o monstro das bolachas se tivesse dignado a mexer o rabinho, quebrando a corrente sofá-cú. Não vou tentar explicar, porque não há explicação possível, ou melhor, ela há, mas não me quero meter por estes enredos).
Passado uns minutos a sua Maria volta com uma caixa semi-leve de gelado de chocolate com pepitas de chocolate e natas.
- Bem te disse que não tinha comido tudo…
- Toma lá essa merda. E sabes perfeitamente que não me chamo Maria…
quarta-feira, março 06, 2013
Entraram e saíram sem dizer nada
check-in check-out
Entraram e saíram passadas
algumas horas. Não deixaram identificação. Pagaram a estadia e o champanhe. Check-in,
check-out e acabou. Não desfrutaram do pequeno-almoço, não foram á piscina, não
fizeram nenhuma massagem. Para eles foi apenas um quarto. Só mais um, como
tantos outros. Mais cedo um hóspede visivelmente alcoolizado tinha jurado ter
passado os melhores dias da vida dele. As férias resumiam-se a um ano de
trabalho concentrado nestes dias no mesmo hotel, num quarto igualzinho, com a
exceção de que seria um dos poucos momentos bons da vida dele, pelo menos
durante os próximos 365 dias. Este senhor tinha evidentemente trabalhado o
dobro antes de ir de férias, e o dobro iria ter de trabalhar para recuperar o
tempo de lazer. Levara os dias a jogar golfe durante o dia, e beber durante a
noite, terminando sempre no estado mais lastimoso possível. Conforme a estadia
se ia aproximando do fim, o nível de álcool no sangue ia aumentando, crispando
no seu rosto o recíproco aumento do mau estar, perante a imagem do regresso. No
piso acima um casal queixa-se do barulho dos vizinhos que conversam e vêm
televisão com o volume no máximo a noite toda. Este casal faz igualmente questão
do seu retiro no Algarve, desta feita mais vezes durante o ano. É o verão, o
carnaval a pascoa e o ano novo. Só o Natal, com muita pena, deve ser passado no
lugar de origem junto dos seus. Os vizinhos que vêm televisão já têm uma idade
avançada. O que acontece é que adormecem cedo e a televisão fica ligada a um
volume exagerado, volume esse que não os incomoda mais, primeiro porque se o
ouvissem até era mais uma companhia. Os ouvidos já não funcionam já há alguns
anos. O ritmo mantém-se porém. O hábito de ser humano leva-os ao mesmo hotel,
se possível ao mesmo quarto, ano após ano. O dinheiro entra exatamente na mesma
medida e é guardado com a mesma organização desde o primeiro dia que entraram
neste local. Não são férias, são recordações, são hábitos associados aquele de
acordar de manhã e tomar o pequeno-almoço á mesmíssima hora, com os mesmíssimos
ingredientes a cada ano que passa. A noite também passa e faço-me testemunha silenciosa
de tudo o que acontece por aqui. Hoje sou aquilo que se chama na gíria
hoteleira night, ou night auditor, ou auditor da noite, morcego para os
colegas, batman para o ego. Por mim passam corpos e sombras daquilo que eram
homens e mulheres de perfeita condição durante o dia. Rostos cansados,
alterados, zangados ou perdidos, perante o meu espaço. Sorrio e tento ser simpático,
enquanto me protejo de algum jeito mais maldoso que a noite por vezes trás. Estou
sozinho mas nunca me sinto só. Faço-me de forte quando faz falta, enquanto
tremo de ansiedade perante certas atitudes menos cordiais. Cada qual tem aquilo
que merece.
Fecha os olhos...

O cenário é uma estação de comboio. O cheiro é de metal e café. O frio também entra pelas narinas, queimando o asfalto do trato conforme vai passando. Se pararmos de respirar, a dor passa. O desconforto da rua passa a ser o desconforto do interior das carruagens. Metade das pessoas deste local vai para uma migração diária, aquela que os leva ao fim do mês, aquela que é feita por consciência, por obrigação, por tédio e ódio. Por resignação também. Por vezes chega-se a imaginar como teria sido a vida se fôssemos crianças todo o tempo. Como seria o tempo se não existisse ainda a maldade, se não deixássemos fugir esse sentimento e ficássemos agarrados às saias das nossas mães, o desejo de ter uma vida sem responsabilidades nem dores, um lugar próprio sem pressas. Por que raio vim aqui parar, porque está assim o meu destino, que fui eu fazer eu, mas que merda… As linhas sujas deixam passar o vento pela simetria. Sob os arcos, os comboios esperam a iniciativa, burros de carga sem emoção. Cá fora o movimento é constante, sobe, desce, entra, sai. Corre-se sem necessidade. Ainda não sai ninguém daqui. Algumas pessoas vão sumir-se, a partir deste ponto. A partir deste ponto começa um novo conto. Um conto que passa por lá. Um conto que inicia-se nas lágrimas de despedida numa fria e insensível estação de comboio. Malas e sacos, lágrimas e abraços. Famílias inteiras ou apenas o homem da casa, que se vai sem saber bem o que o espera no outro lado da esperança. Estação reles a da despedida, em que tantas vezes sonhei em não entrar. Estações de merda, aquelas que me fizeram sofrer quando era mais novo, criança ainda. Todas elas odeio-as. Recordações para esquecer um dia. Á volta dos comboios simula-se a vida. Vendem-se os jornais, prepara-se o pequeno-almoço, flores, mapas, material de viagem. Tudo misturado confunde e cansa só de olhar. Pede-se dinheiro emprestado, procura-se uma mala perdida. Guardamos as carteiras junto de nós em momentos de aflição. O medo investe sem armadura. Ganhar é perder. Perder-se nesta estação é o início do fim. Todos alerta. De repente ouve-se um grito de alegria. As pessoas encontram-se finalmente, passados tantos dias sem se verem. A estação também tem destas coisas de felicidade. O gelo desaparece por momentos. Abraços ofegantes e beijos e mais beijos. Sorrisos e lágrimas de felicidade. De braço dado, os amores agrupam-se e saem apressadamente deste local. O contacto físico fecha os nossos olhos até chegarmos a outro lado. O lado de fora. Fora desta estação, rumo á próxima viagem.
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