quinta-feira, março 27, 2014

Zig Zag

Sonho com caminhos. Caminhos do tipo fotografia. A maior das metades, no extremo superior, reflete o azul do céu. As núvens são poucas, unicamente para não cansar a vista de toda esta pureza de ar. Vento nem vê-lo. O cheiro vem do mar, mesmo se já cá não anda. Em baixo tudo é verde. As subidas e descidas da relva e das flores provam que o mundo se moveu um dia. Sinuosa-se por entre estes verdes um caminho de terra, que alguma bicicleta há de tracejar. Cenário tipicamente Neruda. Idade do Pablo.
Por vezes vemos isto e olhamos para ele. Por vezes sonhamos com ele, versão sépia da vida. Já o vivi. Já o vi. Fotografei-o várias vezes, mas a minha mente mantêm uma vivência diferente, com cheiros, sons e cores que a máquina esqueceu de levar com ela. Sonho que estou no topo. Sonho que já passei para o outro lado. Sonho e nunca chego lá. Ninguém chega lá. Este sonho é como o tempo. Como o tempo presente. Como o tempo futuro. Chegas lá e já era. Está lá atrás no passado. Olha, sabes que mais? é um caminho. Só mais um dos caminhos com que sonho. E sabes que mais ainda? Ainda bem que não chegas lá sem passares pelo passado. Só assim se desenha sem se estragar, o futuro caminho que há de vir.
Acho que está na hora de tomar os comprimidos.


O outro lado do espectro



Check-in Check-out

Cinco da manhã… O sono e o cansaço vão me mantendo acordado. O cérebro flutua enquanto os olhos tentam desesperadamente distinguir o céu da sombra. Qualquer exercício mental dói. Até estas teclas do computador parecem ganhar um peso extra… Anseio pela hora da saída, que dá inicio ao dia dos outros, com exceção do meu. O meu dia veste-se de escuro. O meu sol é um satélite e não estrela. O meu dia  deixou de o ser faz tempo...  Quando se trabalha de noite não se é um pássaro da noite. Não se sai depois do pôr-do-sol para uns copos. Não se olha para o relógio a partir das quatro e pensa-se que já é noite dentro. Quando se trabalha, essa hora é apenas metade do turno que se foi, sendo que o resto há de vir ainda. Se durante os dois dias de descanso tentamos levar uma vida como a da grande maioria do mundo, então aí nem se faz nem se deixa fazer. Andamos do tipo zombie o dia ou a noite toda. O tempo passa numa redoma artificial. Só os dias, esses soldados imbatíveis, desfilam uns após os outros sem dar tréguas a quem nasceu humano. Olhas para eles e não os vês. Desta vez não é o tempo que passa demasiado depressa. É antes o tempo que passa como se andasses de metro e olhasses pela janela, dia após dia, após dia. Os silêncios misturam-se com a cor da parede. O zumbido errado. o da cabeça e não o do silêncio...
Não durmas não.

terça-feira, fevereiro 04, 2014

Hoje á noite

O Senhor Flores está sentado na sua cama. O sono recusou-se, mais uma vez, a visitá-lo. A noite vai a meio. A meio do quê? Se o meio da noite mais parece um poço sem água faz séculos... Séculos de minutos. Séculos de paredes do quarto, cujas curvas, as sombras, as rachas já são mais do que família... Hoje invadiu-o a inquietação. Hoje o seu espírito resolve ruir. O estômago d'outrora já não cai na conversa da coragem. A garganta cerra os punhos. Os punhos gelam-lhe os pés. O frio cola-se. Uma lapa este frio. Flores não se mexe. Não ousa. Fecha-se por dentro. Treme e encolhe-se. Tenta pensar em minimizar os gestos. Os gastos. Não olhes para o relógio, pensa ele. Tudo passa, até o tempo, até a noite um dia... Desta vez tudo parece ir ao seu desencontro. Muitos algos que não fazem sentido. Até o ar não parece girar no sentido habitual. Todos os algos sussuram. Os sons desconfortam-no em sintonia.

Hoje vai-te abaixo meu cabrão.

Quando o calor aperta



A música é lânguida. Arrasta-se como se tivesse uma corrente presa nos pés, cadeados de ferro a sulcar o chão. O ar quente sufoca-me e deixa-me mais lento ainda. O ritmo hoje também abranda os corpos que passam por mim. Hoje quem tem ódios teve mesmo de pô-los de lado, afim de sobreviver a este dia. Está demasiado calor para a guerra. Hoje quem tem amor deve abrandar o ritmo. O calor tem destas coisas. Amena o bem e o mal. A música recusa-se a ultrapassar os limites da temperatura. Até ela sente o peso de um dia destes. Quase se podia dizer que a paz chega com o bater do sol por altura da uma hora da tarde…
Nas ruas não se vê vivalma. Corredores e corredores de calçada, sinuosos traços de chão que não se querem pisar.
Mais abaixo um abrir de terra mostra-nos a terra seca e queimada. Cenário este que mais parece saído de um filme do oeste americano, não fosse a presença resistente de um carvalho despido de verdura, mas mesmo assim imponente e fatalmente discordante da ideia de deserto manipulador e implacável. Cá está ele, bem no meio do nosso abrir de terra, a dizer-nos que nada o assusta, nem mesmo o ritmo da música ou o peso do calor.


Nada o derruba, nada o assusta, ergue-se imenso e imponente, pleno no seu domínio.
O ar continua a sufocar-me. De olhos semicerrados, observo aquela que é a minha película pessoal, o meu filme privativo. Tudo porque, para lá das ruas sinuosas, para lá do abrir de chão onde reina o imponente carvalho, para lá da música e do calor, para lá de tudo isto encontra-se o começar de uma hacienda. A propriedade encontra-se encerrada, as portas protegem-na tudo o que lhe é exterior, com a sua fronte silenciosa e liberta de sentimentos.O edifício principal impõe respeito a quem passa. A sua massa branca olha-nos do alto como quem aguarda-se para dar a sentença final.

É o tempo que passa a fugir. É o vento que o segue a toda a velocidade. É o mar que apazigua e que nos deixa esquecer que o tempo já foi.
Dentro do edifício principal, Rúbia continua entregue aos seus afazeres, áquilo que tem vindo a inventar para não enlouquecer de tédio. Dentro de alguns dias irá pensar no acumular do tempo em que esta se mantém dentro da propriedade. O tempo não quis esperar pela Rúbia. Não aguentou que ela se decidisse em casar. Que insolência. Não há respeito por alguém tão nobre de espírito e linhagem? Rúbia olha. Mede as distâncias. Sente o silêncio. Inspira. Respira. Recomeça.
Quem vencerá esta batalha? O carvalho? a Rúbia? O vento? O calor? Aposto na natureza... Ou seremos nós, os vencedores?

sexta-feira, junho 28, 2013

















A Senhora Rosa voou. Saiu de um lugar para outro, pelas nuvens, pelo vento, pelo ar. Abriu as suas asas e foi para a zona quente do mundo. Apontou para onde o calor a chamava, qual ave migratória, em busca do sol nascente. Levou com ela, a Senhora Rosa, os sonhos daqueles que ficaram. É sempre assim para quem vê o rasto do caminho a desenhar o seu trajeto. Sobretudo para aqueles que nunca tiveram a sorte ou a coragem de sair do seu lugar encantado. Os voos alheios enchem-nos de porquês e de desejos transformados na acção dos outros. Os que fogem de casa, os que mudam de vida, de país, todos eles enchem os nossos corações de imagens e formas que nem sempre correspondem à realidade. Desses sonhos chegam a nascer autênticas lendas vivas. Os mitos vêm das vontades. A Senhora Rosa vai ao encontro do encontro. Leva uma mala no porão, um livro na mão e uma flor no cabelo. Leva uma vontade misturada de desejo e anseio, tristeza e alegria.
Cá em baixo vemos um risco no céu e pensamo-lo cheio de cores e sabores de outras regiões. Vemos o sol mais próximo desse mesmo rasgo e achamos que por lá a vida é melhor, mais quente, mais colorida.
Lá em cima a Senhora Flor mexe no cabelo, contorce os dedos. Olha para o livro sem o ver. Toca na flor que leva no cabelo. A ansiedade da partida, com toda a rotina do despedimento, é substituída pela mistura explosiva do reencontro, por parte daqueles que ansiosamente a esperam. No meio fica o único momento em que se respira. Momento esse que pode durar ou não. A ilusão da calma paralisa-se no ínfimo instante que passa entre estes dois períodos, num misto de dor e de paz, ou melhor, paz entre as dores.
Nós, comuns observadores temos uma visão que nos provoca inveja. Olhamos e louvamos a ideia de viagem. Gostamos de nos despedir e fazer questão de demonstrar um pesar pela importância da partida. A chegada, essa tem igualmente sabor a braço de ferro vencido, que é preciso marcar com urros e abraços. A festa é rija quando se chega ao destino, trabalho hercúleo este.
Já para nós, viajantes, é mais uma forma de sair de um lugar e chegar a outro. Temos de levar com os festejos que nem sempre são o resultado das nossas emoções. Um porto. Um destino forçado por vezes. Uma lenda de vontade. Nem todas as viagens são de lazer, de aventura, de paixão pelas imagens, pelas fotos do mar e da praia. As colinas verdejantes não nascem dos aeroportos. Nascem dos olhos de quem fica e vê nos aeroportos o caminho da vida selvagem.
Em breve o avião prepara-se para pousar.
Tem calma Senhora Rosa. Respira fundo. Aclara a garganta. Vai correr tudo bem. Deste lado alguém te ama. E do outro também.

No meio está o vazio


O Sr. Flores sente-se vazio no meio do vazio. O nada no nada, o repetir no interior de uma partícula de si próprio, que, por mais pequena que lhe semelhe, acaba ser a maior de todas as não presenças do seu ser. Sente o peso do invisível, a falta pela falta, o desaparecimento pela ausência que se avizinha. É isso o vazio. A ausência. A dor da falta de alguma coisa que até podia ser aqui transparecida, mas não tiraria por isso o sentido á sensação. O Sr. Flores sente uma bola de sabão no lugar do estômago. Sente que pesa menos 10 quilos, O oposto dos abdominais. O Sr. Flores sente o os "nãobdominais". O dia passa por ele como o vento passa pelas montanhas. Apenas passa enquanto o seu olhar mantém-se á velocidade cruzeiro de uma sombra. O movimento das ruas em seu redor não se faz esperar. Os carros passam à mesma velocidade estonteante, enquanto os transeuntes fazem o possível para sentir que nada é em vão. Ao longe os semáforos vão controlando os avanços e recuos da sociedade, enquanto os negócios e outras amostras de trocas se preparam para enfrentar o dia. O Sr. Flores passa por eles, qual espectro, qual sombra, qual torre do relógio que vê tudo sem se manifestar, apenas manifestando a cor das suas janelas, indiferente a quem nasça ou morra. O Sr. Flores sente o desaparecimento como quem sente a faca a entrar pela garganta abaixo. Ele sofre o mal dos males. Ele sente ausência.
O Sr. Flores não é, no entanto um desgraçado, um triste, um sem sentido. O Sr. Flores é um privilegiado. Só ele o sabe, só ele o compreende, ele mais uns poucos neste mundo. Os loucos como ele que enlouqueceram e que sentem a ausência da loucura. Aqueles que escolheram repetir a felicidade milhares de vezes no seu interior, desaparecendo a cada segundo multiplicado, voando desta vida, tornando-se invisíveis aos olhos da camada rochosa do nosso planeta,e das pessoas que o pisam, sem saber o que estão a perder. A intensidade da contração muscular, a pressão do puro prazer, o esforço que nos sai das entranhas, tudo isso tem um lado B, aquele que nos retira parte dos órgãos e nos deixam secos, encovados, á beira da extinção. No entanto, prontos para reviver ao expoente máximo tudo aquilo que nos abrigou da demência, roçando-a com delícia. O Sr. Flores não é de lamentar. O Sr. Flores encontrou aquilo que pensava não existir. E recebeu-o de braços abertos, enquanto se foi desvairando até se desfazer no pó do universo. E o Universo? Esse vai desfazê-lo sem dó nem piedade. Esse vagabundo das estrelas vai desmontar toda e cada partícula do Sr. Flores, numa vã tentativa de descobrir de onde vem o prazer. Esse Universo vai atuar da forma que apenas ele sabe, não pela força que nos traz a natureza, mas por inveja do Sr. Flores. Pura inveja caro Universo. As tuas estrelas todas juntas não chegam aos calcanhares do vazio do Sr. Flores.
Embrulha.

Deitamo-nos tarde


Há quem queira sair daqui, de foice na mão. Há quem saiba que lá fora é tarde e a noite não se explica sempre que entra, sem ser de rompante. Aproxima-se e impõe-se. Instala-se e cumpre o seu dever, a sua promessa. Há quem chame a noite pelas entranhas do seu âmago na esperança de ver uma luz que entre na alma sempre que o sol se põe. Há quem se esprema lá em baixo, ao olhar de quem está confinado ao seu quadrado de vida, metros mais acima, vomitando num esgar de curiosidade e prazer, perante a falta de ar da vida, o languir do tempo que passa... lá fora, nas valas e nos passeios, anda gente que parece precisar de encontrar qualquer coisa que deixe de ser e passe a fazer sentido. Todos procuram o mesmo sem esperança de o encontrar... alguém já o levou e não nos deixou nada. Pelo menos é o que tentamos fazer crer. Andamos de cabeça erguida á espera que a esperança se digne a cuspir-nos em cima... ou não. É o que tentamos fazer crer...
Ou não. Não. E Não. E Não. NÃO!
Não para ti esperança ilusória. Não para ti especulação de felicidade. Estamos cá e respiramos o teu ar ao rir-te na cara. Não te procuramos mas sim fugimos de ti sem medo nem pestanejo. Não estás paciência... nós estamos. Que o saibas de uma vez por todas. Somos na imperfeição. Deitamo-nos tarde e regressamos na noite seguinte. Por aqui tudo se faz do nada. Por aqui alguém ama, alguém mata, alguém foge. Alguém fica a ver e refugia-se naquilo que deveria ter feito. Todos o sentem e o reproduzem vezes sem fim, repetindo a dor, repetindo o prazer, repetindo a repetição.
Não para ti felicidade. És filha do engano. És filha da puta. És filha do homem com “h” pequeno. Aquele homem mais homem que já alguma vez conheceste. Aquele que mente, aquele que engana, aquele que vibra na sombra e na sabedoria da vida.
Felicidade não nos assombres. Somos homens e não imagens do fim. Festejamos no limite da compreensão e amamos como se não houvesse amanhã. Impingimo-nos no extremo das nossas forças. Somos agressivos e esfomeados. Somos mais que tu alguma vez pensaste respirar. Odiamo-nos e temos orgulho nisso. Felicidade, cara amiga, enviar-te-emos flores no teu funeral. Por aqui deitamo-nos tarde. muito tarde.

Somewhere under the rainbow



O sol passou a sua luz pela densa humidade, dividindo-se pelas sete cores que compõe a luz branca. Luz. Branca. Sete Cores.
Cá em baixo, a Senhora Íris já se apercebeu do fenómeno. Olha sem ver. Pensa que se sente só. Sente-se só apesar dos gritos que vão ecoando da sala. O resto da família discute, entrando no espaço pessoal de cada um, até faiscar. Se é que exista tal coisa, numa família, como um espaço pessoal assim tão grande. Afinal, família é sinal de espaço de manobra limitado, partilhado por todos e em todos. Quando as coisas vão mal a ofensa entra forte, a chamada baixaria está de serviço, até mesmo no interior de uma família.
A Senhora Íris não tem esse direito sequer. Não se pode dar ao luxo de opinar sobretudo durante uma guerra. Tem o direito a ter a mesa pronta para todos comerem, tem o direito de ter a casa limpa e arrumada, pode até ser criada de todos, e ver a novela na televisão da cozinha.
Na sala todos querem ter razão. O chefe de família á beira da reforma, os dois filhos desempregados, as respetivas esposas, uma criança. Todos lá moram. Todos lá comem. Todos esperam ser servidos. Todos acham que são os maiores, que têm sempre razão, não têm culpa em não ter nada, têm razão em merecer apoios, têm a obrigação de palmadas nas costas, de empatia, de mérito. Só ninguém consegue explicar porquê. Então culpa-se o próximo e alimentamo-nos dessa mesma culpa. Mais cedo ou mais tarde, o próximo estará mesmo ao nosso lado, e conhecendo-nos tão bem como o conhecemos a ele.
A senhora Íris congelou o olhar no topo do edifício oposto, junto da linha que o une ao céu. Mesmo por baixo do arco-íris. Daí sonha com outros lugares e aguarda a sua vez, a sua vez de voar, como o azul do céu que tudo explora, tudo conhece, a sua vez de ver coisas novas, gente nova com sorrisos em vez de opiniões… Assim vai pensando, até quando, um dia, será que amanhã, será que para a semana? Até quando? Então Senhora Íris, não sabes que vais sonhando apenas até chegar a hora em que terás de levantar a mesa? Afinal como não possuis os estudos dos outros, é natural que te caibam essas tarefas, tantas vezes to disseram as tuas noras. Elas sim estudaram e merecem um estatuto ao seu nível. Um trabalho ao seu nível. Um salário estrondosamente válido para as suas capacidades. Tudo aquilo que não se enquadrar nestes parâmetros não serve. Ela gostava que lhe dissessem outras coisas. Poderiam conversar com ela um bocadinho. Gostava que lhe dissessem qualquer coisa de bonito. Só de vez em quando. Era simpático da parte de todos deles. Coitados. Não estão para isso. Este país não ajuda ninguém. Coitados dos meus filhos, dias a fio sentados a olhar um pró outro, lá na sala… E a criança, o que vai ser dela? O pior, Senhora Íris, o mal é seres uma querida. É tentares agradar. É fazeres tudo por amor. Neste caso Senhora Íris, o amor não ajuda…
No edifício onde ela pousa o olhar encontram-se várias janelas com as suas persianas abertas. Também aí há gente à mesa. Também aí vivem famílias. Por vezes consegue vislumbrar um vulto a passar por uma dessas janelas, e logo inventa um cenário, uma telenovela, uma história. Hoje sente-se um pouco só. Falta-lhe a coragem para inventar seja o que for...

5-4-3-2-1... descida abrupta à terra....

- Mãe!!! A sério que é isto que queres que a gente coma?

sábado, maio 25, 2013

Quanto mais choras…





Mais um que se vai embora… Uma mala em cada mão e lá vai ele a entrar no comboio com destino a Berlim. Sem planos concretos, despediu-se da família e dos amigos. A história repete-se pela milésima vez, não é preciso estarmos aqui a prolongar-nos muito sobre o assunto. Uma vida supostamente mais próspera é o que todos esperam nesta estação. O maior. Sou o maior, pensa ele. Vou ser isto e aquilo. Vou trazer isto e mais isto. Vou mostrar a todos que consigo. Estes pensamentos também são sempre iguais. Os mesmos em todas as casas, aqueles que antecedem a partida. Os dias e as semanas que antecedem a partida. A entrada no comboio, essa, dói que se farta. A partida do comboio connosco lá dentro, essa, vai separar os homens dos “outros”. Aí a minha vida, o que fui eu fazer… e agora para onde vou. Nem sequer falo alemão… O que me deu para meter-me neste filme…
Uma das coisas que mais me chama a atenção é o momento da despedida. Já tive os meus e sei o quanto custam. Muita gente pode achar que é só uma sessão de choradeira mas não é. É uma dor que não tem explicação, e que começa muito antes da dita data de partida. Há quem engula a saliva durante semanas, com um nó na garganta, ao ponto de tremer todo por dentro, apenas para evitar uma lagrimazinha… isto porque se sabe que, se deixamos sair uma, se, por acaso, uma gotinha conseguir sair, então malta preparem-se… É uma cascata de salitre, confissões e frustrações que tão depressa ninguém se vai esquecer. Há quem não arrisque com receio de cancelar os planos todos. Então é pelo melhor engolir, e engolir, e engolir mais uma vez, ao risco de ter um ataque de nervos só para evitar a abertura dos canais.
A despedida na estação é o teste derradeiro á nossa resistência, quem tiver nervos de aço que mande vir mais dois. Normalmente poucos aguentam. Já vi desabafos acontecerem e acabarem á bofetada, já assisti a homenagem a meter músicos á mistura. Já vi gente do oriente com os seus cânticos, rodas e gritos de encorajamento, seguidos de abraços e rodas cerimoniosas. É raro aquele que não explode.
É giro quando se apanha um espertalhaço que resolveu não levar ninguém para a despedida, para evitar este tipo de situações. Esse coitado há de chorar por causa de ver os outros, e depois arrepende-se e começa a querer ligar a toda a gente. Na altura em que viajava com os meus pais não haviam telemóveis, nem tantas formas de contacto como agora, o que tornava essa situação mais aflitiva ainda. O amigo espertalhaço passava então por uma agonia tal que era pior que se tivesse trazido a cidade toda para a despedida. O coitado em vez de explodir, implodia e nesse caso, as marcas são muito mais profundas. E as figurinhas tristes também. Uma festa.
Hoje, sei que é feio mas vou aqui admiti-lo publicamente, sempre que vou viajar, seja de que meio de transporte for, procuro sempre o meu amigo Tarzan, ou o Super-Homem de serviço, aquele que vai passar de herói a florzinha de estufa, acabando derrotadamente sentado no lugar que o destino escolheu para ele, a fungar do nariz e a babar-se…Eu sei que é maldade da minha parte, eu sei…
Talvez seja porque, quando me calhou a mim, e não foram poucas as vezes que tive de me despedir, quando era ainda uma criança, já acordava a chorar, saia de casa a chorar, entrava na estação a chorar, sentava-me no lugar que me estava destinado no comboio, avião ou carro a chorar, e lá acabava por adormecer aos soluços encostado á minha mãe, para acordar algures, horas e quilómetros mais tarde…

quarta-feira, maio 22, 2013

O Sr. Joaquim já esqueceu o seu monólogo

Domingo. 02h30.


Uma alimentação equilibrada! Precisas é de comer como deve ser! Assim tudo direitinho e com juizo… (isto de falar para dentro da nossa cabeça á fácil) E fazer exercício pelo menos três vezes por semana!

- Faz tu, pensa ele para com os seus neurónios…

O pior é quando da cabeça passa para a boca. Quando se começa a exprimir aquilo que o cérebro comanda, em palavras, aí é que começam os problemas. É que não há volta a dar. Há sempre alguém que ouve e que vai registar, para no fim jogar-mo à cara. Mas estes pensamentos também não ocorrem em todas as ocasiões. Este diálogo surge quando estou sem sono, a olhar para o teto … A minha Maria está a dormir e, pelo volume do ressonar, diria que no país das fadas, a festa é rija.

Domingo. 18h45.

O Sr. Joaquim já esqueceu o seu monólogo. Está unido ao sofá de sua sala. Este sofá é oficialmente seu. Lá em casa já se estabeleceram todas as regras e todos os territórios estão devidamente delimitados. Afinal de contas, 17 anos de casamento servem para retirar qualquer dúvida em relação aos pertences de cada um. Há coisas que se partilham, e há coisas que não se partilham. Aquele sofá é dele. A sua Maria, se precisar, tem um cadeirão que a satisfaz plenamente. É ele da mesma qualidade que o seu mestre, visto terem ambos sido adquiridos em conjunto, como mandava o folheto. Calma. Em relação aos pertences e não pertences, poderíamos dedicar uma vida aos detalhes, pelo que fiquemos por aqui. Fiquemos para já pela singela declaração que, naquela casa, o Sr. Joaquim é dono e rei de determinados artigos, tarefas e atitudes, enquanto a sua Maria é proprietária indiscutível de cantos, recantos e segredos mal disfarçados, altares e cúpulas de tudo o resto. O que nos interessa verdadeiramente é a relação entre aquilo que o Sr. Joaquim pensou com os seus neurónios durante a noite, e a pose de rei com que nos brinda (sim porque neste cenário, a nossa posição é de ver tudo sem sermos vistos). Comecemos por elucidar o seguinte: a relação de monopólio que existe entre o nosso herói e o seu pousio também tem a ver com um detalhe técnico, a relativa moldagem do sofá ao seu extremo, extremo esse que já ocupa um belo terço do espaço disponível. Da mesma forma, a curvatura, ou seja a relação cabeça-pés (se podemos chamar áqueles dois currais e os seus dez leitõezinhos - pés) não permite que se consiga uma postura de ângulo reto, sendo que as próprias costas do sofá ganharam uma inclinação do estilo personalizado. O problema também é a barriga, cujo inchaço permite-nos concluir que este homem estava destinado á hibernação, pelo que o seu corpo decidiu armazenar todo o material necessário a uns bons meses de sono. Ele sabe deste problema, mas porquê? Se estava de facto destinado á hibernação, porque raio não conseguiu ele dormir ontem? É simples a resposta Joaquim. Se eu pudesse contactar-te dir-te-ia que a resposta é mesmo muito simples. O facto de não conseguires hibernar é porque estamos… na primavera. Os ursos não dormem na primavera Joaquim…

Existe portanto um dilema que é o facto do mesmo cérebro que, durante a noite, lhe tinha recomendado uma vida acompanhada de água, sopa e fruta, é o mesmo que se congratula pela posição de regalo desfrutada desde as 11h30 da manhã, batata frita, cerveja, e quem sabe se não tenho uma bela surpresa daqui a pouco e a Maria encontra-me um resto de gelado que vou limpar diretamente da caixa á boca, sem passar pela colher. Mmmmmm … Um delírio.

Se o problema, do ponto de vista do Joaquim, é a barriga, os grandes culpados não passam nem por ele, nem pelo sofá, nem pelas batatas, nem pelo possível gelado, nem pela cerveja, nem pelo facto de estar na mesma posição desde que saiu da cama, nem pela sua Maria, nem nada disso… A grande culpada disto tudo é a televisão. É ela que não me deixa fazer nada. Ela sabe como prender-me ao meu umbigo. Ela canta-me canções e conta-me histórias que duram horas e horas, ela mostra-me anúncios de mais batatas, mais cerveja e mais gelados. Ela. Ela. Ela. Uma vadía.

(do sofá surge um urge)

- Mariaaaaaaa!!!! – vai lá ver se não há nada de doce no congelador.

( do quarto um piar com pieira)

- Não há! Comeste o resto ontem.

(a resposta não se faz demorar)

- Não comi tudo não! Vai láaa!!!

(ouve-se um arrastar de correntes, que é como quem diz que a sua Maria estava deitadinha a ler qualquer coisa rosa, e teve de rebolar dali para fora, que é como quem diz outra vez que do quarto á cozinha deve-se passar pela sala, logo teria sido mais fácil que o monstro das bolachas se tivesse dignado a mexer o rabinho, quebrando a corrente sofá-cú. Não vou tentar explicar, porque não há explicação possível, ou melhor, ela há, mas não me quero meter por estes enredos).

Passado uns minutos a sua Maria volta com uma caixa semi-leve de gelado de chocolate com pepitas de chocolate e natas.

- Bem te disse que não tinha comido tudo…

- Toma lá essa merda. E sabes perfeitamente que não me chamo Maria…