terça-feira, dezembro 04, 2007

Realidades Alternativas - Parte XII - Lara Lina

A opinião geral era essa. Lara Lina gostava de garrafas. Todo o género de garrafas, pequenas, grandes, garrafões, desde que fossem de vidro. Nunca ninguém soube o porquê de tanta admiração por um objecto de vidro e de conteúdos uns mais líquidos do que outros. Só sabiam que ela gostava, e isso chegava-lhes. Bastava que a fizesse feliz para que o resto da aldeia o fosse também. Afinal, cada qual com a sua pancada, havia quem gostasse de moedas, selos, blocos, cromos, sacos, latas, folhas de árvore, esferográficas, relógios… Lara Lina gostava de garrafas, do formato das garrafas, do som que podíamos retirar delas se soprássemos no gargalo de um determinado ângulo, a uma determinada força. Era essa a opinião geral. O que não sabiam, era que o que tornava as garrafas tão especiais no mundo da Lina, era que um dia, pareceu-lhe, que uma delas tinha suspirado. Foi algo tão rápido que nem teve tempo de se aperceber bem aquilo que tinha acabado de ouvir. Estava ela tranquilamente a brincar no chão da sua sala, com todo o tipo de brinquedos caseiros, cordéis, rolos de cabelo, uma boneca muito estragada mas de que gostava muito, e aquela garrafa vazia. Lá fora na varanda, a rádio estava ligada no programa favorito do seu pai, enquanto este lia o jornal e fumava o seu cachimbo. O dia prometia um ritmo lento até ao seu final. O suspiro da garrafa deu-se no preciso momento em que Lara pegava na sua boneca e tentava pôr-lhe os rolos no cabelo. Lara sobressaltou, procurando em seu torno a raiz daquele som. Teria sido impressão dela apenas? Se o som lhe proporcionou algumas dúvidas, já a brisa não lhe deixava espaço para manobrar fora dali. Em poucos segundos a sua atenção focou-se na garrafa ali plantada, baça, a olhar para ela. Lara estagnou. Pensou em chamar o pai, mas acabou por não o fazer. Pegou na garrafa e observou-a. Não havia dúvidas. Estava baça e agora húmida. Lara achou que o que aquela garrafa estava a pedir era companhia. Achou que tinha esse direito, e com os anos a sua vida teve sempre a tender para a companhia. A companhia dos amigos, a companhia dos vizinhos, a companhia das pessoas que se sentiam sós. A companhia da companhia, juntamente com o estranho prazer das garrafas, coloridas, vazias ou meio cheias. Qualquer dia haveria de ouvir uma delas. Seria a prova de que ela tinha de facto ouvido uma garrafa a queixar-se.
Um dia aconteceu. Lara Lina cresceu e fez-se bela. Conheceu a companhia de um homem que a quis ouvir falar das suas luas e sois, das suas divagações e desejos. Fez-lhe companhia quando Lara não lhe pediu. Esta sentiu que pedir seria algo que não era mais necessário. O homem olhou para as suas garrafas e os seus sopros uniram-se. Ao sopro das garrafas juntou-se-lhe o do vento e do vidro nasceu o espelho. Do espelho fez-se a luz e da luz o momento. Lara nunca mais procurou a paz dos seus objectos, como quem procura a paz nas repetições. Havia quem gostasse de moedas, selos, blocos, cromos, sacos, latas, folhas de árvore, esferográficas, relógios. Havia quem gostasse das garrafas e havia quem gostasse apenas de gostar. Várias versões da mesma coisa num mundo em que todas as coisas se repetem com poucas semelhanças, mundo esse em que todas as pequenas diferenças fazem d’alguém a razão da sua semelhança.
Um dia, finalmente, repetiu-se a cena. Durante uma ida á cozinha, Lara tropeçou num momento que tinha esperado durante anos e anos. Nesse dia Lara virou-se na direcção do suspiro, quase por reflexo, mas a sua alma não tomou nota disso. Já não precisava.

segunda-feira, dezembro 03, 2007

Peço immensas desculpas por este momento de baixo nível...

... mas é só para dizer que os Além Merd.. Mar têm uma música nova. Chama-se "Deixa-me olhar". Mas afinal, esta gente tem quantas canções?

P.S: Deixa-me olhar,
deixa-me adivinhar,
que aiiiinda vamos gramar com uma versãozinha de natal...

dito isto vou desinfectar o meu teclado.
Sorry teclado.

3001 Odio seia nem terraço


Para quem previu o fim do mundo na passagem para o ano século XXI, já ide atrasados sete anos meus amigos…
Recordo-me da balbúrdia que foi esse final de ano, com a história do bug informático que nunca chegou a acontecer. Recordo-me também que foi o ano em que os videntes tiraram a barriguinha da miséria. Nada disso tem a mínima importância.
Gosto do mês de Dezembro. Acho que anda tudo meio maluco por causa das compras do natal mas não deixa de ser um mês giro. Por essa razão decidi escrever este texto a tender para o lamechas… aqui vai


O Sr. Márius tinha medo de morrer. Estava o 3º milénio no seu final e tudo apontava para o desastre, ou talvez não. As notícias, os jornais, todos os cálculos previam um descalabro no sistema integrado de implante facial, com as falhas de ligação nas bases de Marte e Júpiter. Dizia-se que na Lua, os implantes sobreviveriam, já que a radiação dos satélites contornava esse ponto. Aqui na terra, as mesmas interferências deveriam fazer-se sentir nos sistemas de comunicação e de transporte aéreo, tanto públicos ou particulares, nomeadamente os serviços públicos e agências de transportes. As pessoas andavam assustadas, muitas cirurgias para remover o engenho que tinha ligado o mundo, por vias ilegais se fosse necessário, lá iam eles, desse por onde der. Os funcionários do sector público esses não podiam fazer nada a não ser desligar o sistema a partir da central, e aí ficar sem contacto com a sede, o lar, as dependências financeiras, os acessos gratuitos e os passes urbanos, marginais num mundo marginalizado, limitado a números e indícios de progressividade, cifrões e mais cifrões. A esposa do Sr. Márius andava atarefada á procura de qualquer alimento não sintético, para garantir uma mesa vistosa para a noite de passagem de ano. Problemas ou não, temos que levar as coisas normalmente. Ninguém sabe o que vai acontecer mesmo…
O Sr. Márius olhou para a filha adormecida no sofá. Na parede visual, os desenhos animados tinham-na posto a dormir. Olhou pela janela, a vida estava igual a si mesmo, a escuridão do anel protector parecia prestes a recolher-se, a noite chegava, com o frio tropical, e as pós radiações que estavam mais altas de dia para dia. Era um privilégio ter um apartamento com janela e paredes duplas. Era mais do que muita gente podia pagar. No 145º andar e o posto de trabalho 40 pisos mais abaixo, o comodismo era perfeito.

Sentou-se junto da sua filhota, acabando por adormecer… Sonhou com os filmes de amor que davam na parede, coisas do tempo em que o mar estava acessível, pessoas saiam á rua para dançar a valsa naquela divisão política chamada Áustria, jogos era celebrado na rua, com tochas e luzes, sonhou com o branco do cimo dos montes, com as planícies do continente quente, e dos pés nus a correr atrás da vida e a contar as histórias do século XXI. Sonhou que era grande e veloz, sonhou que era velho e encurvado. Sonhou que sorria, sonhou que era diferente, leve e mais feliz.
Acordou sobressaltado com o barulho da parede visual. Via-se uma família a jantar em torno de uma mesa de madeira, cores e enfeites por toda a sala, pão e carne na mesa, doces e sorrisos. Um sonho.

E pronto. Está feita a minha previsão para o ano 2999.

sexta-feira, novembro 30, 2007

I smell FIASCO...

Tudo isto porque esta semana telefonou-me um amigo meu a dizer que gostaria de me apresentar algo que, segundo ele, não pode ser explicado pelo telefone...
Dava para nos encontrarmos para um cafezinho?
(se soubessem como a palavra "cafezinho" me irrita profundamente)

Dás-me 10 €uros e eu devolvo-te 1 Milhão!!! Garantido!!

Na continuação do post anterior...
Caso tenha sido atraído num esquema destes então tenha muito cuidado. São muitos os formatos utilizados para extorquir dinheiro, mesmo se possuem todos a mesma técnica, sendo o mais conhecido deles, o da famosa pirâmide. Para entrar, uma pessoa começa por pagar uma determinada quantia de dinheiro, ao qual chamam de “investimento”, já que lhe é explicado que irá recuperá-lo na fase seguinte da operação, que consiste em recrutar mais pessoas e vender certos produtos. Logicamente os membros mais recentes da pirâmide ocupam a sua base e os mais antigos o seu topo.
Este esquema não é sustentável porque o lucro da empresa não vem da venda dos produtos em si - isso é apenas uma fachada, mas sim do “investimento” inicial que cada novo elemento faz.

Dito isto, passo a explicar porque razão cerca de 88% das pessoas nunca irá receber nada, no momento em que a pirâmide atingir o colapso.

Vamos supor um esquema muito simples, que lhe garante que, por apenas 10 € de investimento, quando chegar ao primeiro nível da lista seguinte, terá recebido pelo menos 1.000.000 de Euros - nada mau para 10 minutos de trabalho :

1 - Joaquim
2 – Madalena
3 – Paula
4 – Maria
5 – Luís
6 __________

Aqui pede-se que a 6ª pessoa envie 10 € ao Joaquim. A seguir terá de apagar o nome do Joaquim da lista e inserir o seu próprio nome, passando a estar na 5ª posição, deixando a 6ª livre para o próximo participante:

1 – Madalena
2 – Paula
3 – Maria
4 – Luís
5- Bruno(é isso mesmo, sou eu)
6_ ________

Finalmente terá de enviar esta nova lista a 10 pessoas que irão repetir todo o processo.

Se fizermos as contas, o Joaquim exactamente 1.111.100 €uros. Por ser o primeiro da lista, recebeu 100€ do nível 2, 1000€ do nível 3, 10.000 € do nível 4, 100.000 € do nível 5, e 1.000.000 do nível 6. Parece fácil? É fácil para o Joaquim. Mas não para o restante. E vou explicar porquê:

Vou fazer a lista do nº pessoas que contribuíram para o dinheiro do Joaquim:
Joaquim - 0
2 - Madalena - neste momento 10 pessoas estão envolvidas
3 – Paula – neste momento 100 pessoas já estão envolvidas
4 – Maria – neste momento 1.000 pessoas já estão envolvidas
5 – Luís - neste momento 10.000 pessoas já estão envolvidas
6 – Bruno – 100.000 - neste momento 100.000 pessoas já se envolveram neste esquema.

Podemos então dizer que o Joaquim recebeu 1.111.100 €uros oriundos de 100.000 pessoas.

O problema é que cada vez que juntarmos uma pessoa à lista, temos de multiplicar o nº de pessoas por 10. O que quer dizer que quando a Madalena chegar ao nº1, 100.000 pessoas já terão participado. Quando chegar á vez da Paula que se encontrava no segundo lugar da lista, terão participado já 1 Milhão de pessoas ( o dobro da população do Algarve e do Porto juntas).
Quando chegar á vez da Maria, 10 Milhões de pessoas, ou seja Portugal inteiro terá de ter participado no esquema!
O Luís precisará de 100 Milhões de pessoas (ou seja Portugal, a Espanha e a França juntos).
E eu, o vosso Bruninho, terei de esperar que 1.000 Milhões de pessoas enviem 10 euros cada um.
O desgraçado que vier a seguir terá de esperar que a população mundial chegue aos Dez Mil Milhões (10 Billiões, isto não é nada!).

Como podem ver isto é um esquema bastante simples, sem nada para vender, a não ser uma pequena contribuição de 10 €. Espero com isto não vos ter dado ideias, mas a verdade é que a teoria é tão simples quanto isto.

Quando se trata de convencer pessoas a ingressar num esquema piramidal, está provado que 88% de quem ingressa num esquema destes nunca vai receber nada.
Se é números que querem, pensem neles em toda a sua extensão, nos custos, e nas receitas reais. Informem-se muito bem acerca deles, já existe muita informação na Internet que previne contra fraudes e sonhos que nada têm a ver com a realidade.

Agora divirtam-se a gozar com quem pensou no Mercedes novo á custa de produtos de higiene oral,curas para o emagrecimento e chamadas internacionais gratuitas…

Pirâmides só no Egipto


Se por acaso ouvirem estas frases, meus amigos, fujam, fujam a sete pés.

- “Nós conseguimos melhorar a sua vida! Se fizer isto vais ganhar aquilo. Basta investir agora e esperar pelos resultados. É garantido!”

Sempre a mesma história, sempre ideias novas e conceitos rebuscados num mundo em que tudo já foi inventado – números que provam a eficácia e o sucesso dos produtos. Aprendi a nunca confiar em alguém que me apresenta valores como prova de que o produto é mesmo bom, o emprego garante um retorno financeiro avultado, o esquema piramidal não dá hipóteses e não tem nada a ver com todos os outros. Acreditem, ao contrário, os esquemas piramidais em particular têm tudo a ver uns com os outros, e funcionam de igual modo, ou seja, é bom para os pouquíssimos do topo da tabela, garantindo-vos sem qualquer ponta de dúvida, que mais ninguém vai ganhar coisíssima nenhuma, a não ser uma ou outra pasta de dentes, ou então um batido para emagrecer grátis. Gostaria de fazer aqui um apelo a todos as pessoas que se deixam levar na cantiga do “fale com mais seis pessoas e vai ver que não precisa de fazer mais nada”.

Pessoalmente já por duas vezes tentaram enfiar-me o barrete. Uma das vezes, sem vergonha nenhuma o digo, estava eu com a minha mãe, e lá fomos para casa de um familiar que nos introduziu ao fantástico universo dos produtos da Amway. Lá estava uma plateia de pessoas vindas das várias camadas sociais da minha terrinha ao Sul, incluindo ilustres bancários, vereadores e médicos. É preciso dizer que, primeiro, ninguém sabia para o que ia, e segundo, a esse meu primo, o que não lhe faltavam eram conhecidos… Devia ter cerca de 16 anos e aquilo pareceu-me uma coisa maravilhosa, já me vendo com dinheiro até aos olhos, qual Donald Trump, as minhas pastilhas para a sanita eram muito, mas muito melhores, que todo o teu reino imobiliário. Saí de lá com cifrões nos ouvidos e um sorriso doentio na face. Valeu-me a minha mãe que me pôs os pés na terra com um valente e tipicamente algarvio “estaladaço”, que aquilo era tudo tanga, e que nunca dava em nada, e que o cif que ela usava para limpar a casa de banho era muito melhor que aquela porcaria de gel fluorescente que me estavam a tentar vender.

Numa outra ocasião fui contactado por uma pessoa vinda directamente da Dinamarca (What?!) para me fazer uma proposta de bradar aos céus. Como já tinham passados dez anos desde a minha experiência anterior, e sempre sem saber para o que ia (técnica muito utilizada quando não se quer desvendar logo a vigarice), achei que não precisaria da minha mãe. Fiz muito mal. Fiz muito mal porque este sim, era o esquema maravilha, aquilo que eu não sabia mas que tinha esperado este tempo todo. Não me consigo recordar da marca, mas tratava-se de um tipo de telecomunicações com chamadas mais baratas e até gratuitas entre utilizadores. Após me darem cabo da minha frágil cabecinha durante cerca de 2 horas, acabei por dizer que sim, que aceitava, então ficamos á sua espera para uma reunião na próxima semana com a equipe que irá integrar, bla bla bla, e vais ficar rico, e não te esqueças de trazer o chequezinho inicial de 400 Euros, que te vão ser devolvidos assim que a coisa pegar, o que não deve tardar muito, mais dia menos dia… Num pequeno folgo de inteligência, o único que devo ter tido, lá liguei á minha mãe que, por falta de força para me cascar (afina já passaram mais anos e eu cresci), começou a rir-se e a gozar, o que muitas vezes dói mais do que um bom soco nas trombas… Graças a ela nunca cheguei a ir a reunião nenhuma nem a dar o tal chequezinho…
Com o passar dos anos acabei por me informar bastante acerca desses esquemas. Sempre que alguém me vem explicar como vai ficar rico, mesmo que não me queira envolver no assunto, possuo as armas necessárias para, com muita pena minha, desvanecer todos os seus sonhos de menino mimado, terminando o meu discurso com a célebre frase: “vai mas é trabalhar”.

Para não me alongar muito mais, prometo que num próximo post vou demonstrar porque razão os esquemas piramidais, por mais que nos digam que “este é que é”, “não tem nada a ver com o outro”, garanto-vos que são mesmo todos iguais e não levam a lado nenhum.

P.S. Não me digam que não vos avisei.

P.S. Beijinhos à minha mãe.

quinta-feira, novembro 29, 2007

Mundei-me. E tu?


- Mundei-me por aí. É isso mesmo. Dei a volta ao mundo com a tua ajuda. E agora que sou feita de experiência, nada mais me resta que abandonar-te. Tive de ti o que queria.
O rosto convencido de que iria causar algum efeito devastador, entrou limpo e desabou o seu amar numas poucas frases que supostamente seriam a prova das suas convicções menos correctas. O efeito não surgiu, no entanto, tão dramático como o desejava. No rosto do companheiro com quem tinha passado todos aqueles anos, nada mais do que um simples esgar insolente e simplicista, como quem já ouviu este discurso mais do que uma vez, e que nada de muito diferente esperava. E mais ainda; ao rosto insolente e simplicista, notava-se uma certa leveza que dava a entender que um peso enorme tinha saído dos ombros de quem o carregava…


O melhor da vida, sempre gostei de o frisar muitas vezes, são as relações. Todas elas. As relações que temos com a nossa família, os entes queridos e os mais afastados, as relações com as pessoas que amamos, os amigos, todos aqueles que nos tornam a vida fácil e agradável. Mas mais do que isso, o que torna as relações ainda mais fantásticas, é o detalhe específico que faz com que algumas delas não corram tão bem. As que custam a digerir, as guerras interiores, os problemas, as pessoas que não se deixam compreender, aquelas que nos fazem sofrer, aquelas que nos atraem sem sermos atraídos em retorno, as duras, as peganhosas, aquelas que ardem na alma, essas são deveras especiais. Se a isso juntarmos com carinho as relações que consideramos menos importantes, com os vizinhos, os funcionários dos correios, os professores dos nosso amigos dos quais só ouvimos falar, dos colegas de trabalho das empresas concorrentes, daqueles que ficam na fila atrás de nós e que só conseguimos ver nas poucas vezes que olhámos para trás só para ver o quanto a referida fila tinha se alongou enquanto tivemos á espera, se pensarmos em todas as vezes que, de uma maneira ou doutra, nos cruzámos, trocámos umas quantas palavras, um olhar compreensivo, um esgar repreensivo, se passarmos uns míseros segundos a pensar que do outro lado do espelho alguém está em nós da mesma forma que o esqueceremos ao fim de uns poucos segundos, se fizermos isto tudo, então podemos realmente dizer que provámos a verdadeira liberdade. O poder de sermos, por um respirar apenas, parte de outra carapaça, outro castelo de vidro no qual poderíamos espreitar, faz nos sentir o quanto somos afortunados e felizes. Há quem lhe chame cusquice, há quem queira saber como termina aquele momento que tanta importância teria para alguém. Se juntarmos as pessoas que optam pela cusquice de saber o que sentiu na realidade o parceiro pouco infeliz, ás pessoas que viriam terminar a surpresa da jovem interesseira, se juntássemos todas essas pessoas e as puséssemos a comunicar, então garanto-vos que o final desta cena seria o menos importante …

- Adeus
- Adeus

Voltei à minha televisão privativa, a minha janela virada para a Estrada


Das coisas mais aborrecidas neste mundo é ter de fazer pausas nas coisas que mais gostamos. Este blog é uma delas. Voltas e voltas dá a vida, sobrando sempre para os nossos momentos egoístas e veramente impulsivo-necessários. Aqueles que precisamos como do ar que respiramos, mas também aqueles que acabamos sempre por sacrificar.
Tudo bem. Agora que voltei à minha janela privativa, aquela que me deixa momentos de paz e sossego, posso retirar este prazer da minha lista de coisas-que-adoro-fazer-mas-não-consigo. Por isso aqui estou, mais uma vez, a segunda se não me engano, em, que decido alimentar o meu ego e o “Alternatividades”, ou, melhor dizendo, ambos e o mesmo,voltar a escrever de forma mais assídua, disciplinada, e muito mais frequente, qual terapia do amor…

A minha janela para a estrada está de volta. Regressei ao meu local de trabalho preferido, por entre a paz e o barulho, o silêncio e o brilho, a escuridão da alma versus os números e os cálculos. Harmonia diriam alguns, caótico para outros, mas sempre, vivo, único e esclarecedor daquilo que realmente vai na alma das pessoas. Ontem fui tradutor de sonhos e ideias loucas, hoje continuo a transpor de uma língua para a outra, mas desta vez são dívidas, soluções e presentes envenenados… Cada caso é um caso quando devemos algo que não é nosso. São inúmeras as razões que levam as pessoas a tomarem decisões que só fazem sentido para elas próprias. Quantas vezes já deve ter tentado chamar á razão um adolescente apaixonado, sem sucesso. Quantas vezes tentaram convencer alguém a não fazer algo, resultando numa guerra, aquilo que inicialmente era um conselho de amigos?
Quando alguém se recusa a ver aquilo que faz todo o sentido para o resto do mundo, é bem provável que algo irá correr mal a médio/longo prazo.

Quando a bomba acaba por explodir, muitos casos acabam por vir parar à minha secretária. Ontem estive no imobiliário, hoje sou consultor de crédito. É o que dá ser tradutor para uma entidade com várias firmas e formas. Vemos de tudo, sabemos tudo, fazendo a ponte muda e surda, após as revoltas, os segredos e os escândalos. E já agora, nada como ser versátil. O rei dos animais, no cenário dos homens, é o ser camaleão. Quem possuir as características de tal animal dentro da sua alma, consegue ler os silêncios como ninguém, as mudanças de estado, o prazer.

É melhor assim…

quarta-feira, agosto 15, 2007

Realidades Alternativas - Parte XI - A Senhora Maria quer escrever


A Senhora Maria acordou com vontade de ser alguém. Sonhou em ser perfeita e reconhecida pelo mundo. Primeiro pensou que queria ser actriz, depois bailarina, mas passou os olhos pela televisão e achou que poderia ser escritora de livros infantis. Achou que não era muito difícil escrever para crianças. Sentou-se à escrivaninha de madeira, pousou a cabeça sob as palmas das mãos em forma de borboleta e resolveu pensar e pensar… achou que, afinal de contas não deveria ser muito complicado encontrar um novelo de história que fosse da compreensão de uma criança. Espreitou pela janela que dava para uma rua bastante inclinada, por onde poucos carros passavam mas que servia de rampa de lançamento a todos aqueles que gostavam de experimentar pela primeira vez, os prazeres de uma bicicleta ou de uns patins. Muitas quedas, muitas nódoas negras, sustos quanto baste, mas acima de tudo muito prazer e emoções partilhadas por pais e filhos daquela rua. A senhora Maria achou que era capaz de escrever uma história para crianças. Continuou a organizar um pensamento que muitas vezes fugia devido à sua natural falta de concentração. O que a Senhora Maria queria mesmo era dar fluxo no papel, à sua imaginação fértil. Bastava que alguém inventasse uma máquina de registar os pensamentos para que ela fosse, de um dia para o outro, reconhecida pelo seu talento de fugir deste planeta e lançar-se nas aventuras mais loucas e doces, que só uma criança consegue ter. Já se imaginava a ler a sua história para outras crianças, numa escola qualquer, perante uma sala cheia de pais interessados. Basta querer Maria, dizia-se. O seu primeiro pensamento envolveu uma bola vermelha que um menino queria muito por vê-la no jardim do seu vizinho, mas por qualquer motivo, a bola transformava-se em crocodilo verde e o rapaz era agora uma rapariga de saia cor-de-rosa e chupa-chupa na boca. Do nada, a sua alma desvanecia-se e quando dava por ela, já estava a pensar nas compras que tinha de fazer e em toda a roupa que tinha de lavar até ao final da semana, estar tudo pronto para receber a família. A senhora Maria já era alguém, mesmo se não o achasse. No entanto pensava que o seu trabalho era infrutífero e que pouco brilho lhe dava ao ego. Ser mãe e mulher não lhe era especialmente gratificante. Mesmo se em volta dela tudo representava felicidade, amor e fortuna, era respeitada por todo o seu trabalho pelo marido, pelos filhos, pela vizinhança. Naquele dia a Senhora Maria acordou com vontade de ser alguém e pronto. Alguém diferente como quem faz algo que vai melhorar um bocadinho o mundo, mas à escala maior. Pensou na bola vermelha e nas crianças que passavam de bicicleta pela sua janela. Pensou na sua família este fim-de-semana, pensou no dia em que casou, no dia em que nasceu o seu segundo filho, no dia em que resolveu ficar em casa, e no dia em que pensou em escrever qualquer coisa para que não se esquecessem dela um dia…. Pensou que se calhar deveria começar por um desenho, já que se um livro não tiver uma qualquer gravura, então a probabilidade de ser escolhido diminui drasticamente. Basta querer Maria dizia-se. Qualquer coisa há-de sair daqui. Algo de bom vai resultar. Talvez se conseguir que alguém o leia e goste. Talvez se conseguir pelo menos que alguém o leia. Já era bom… Maria, hoje em dia toda a gente faz-se sentir de uma maneira ou de outra. Tudo o que existe em nós é reflectido de qualquer maneira. Escrevendo ou não, tudo aquilo que tens dentro de ti sai e espalha o seu aroma pelos locais por onde passas. A vida é desenhada por todas as senhoras marias, assim como todos os outros senhores, meninos e meninas, animais, carros e ruas, dinheiro e emendas, que fazem tudo aquilo que são resultado daquilo que os representa, onde quer que se sintam representados, neste mundo e em todos os outros, talvez o dia o entendas. Se o escreveres é como se o gritasses de forma mais específica e mais directa, é só isso e mais nada. Então se for preciso grita-o. Grita todo o teu sentir, felicidade e penar, escreve a tua voz naquilo que és, risca as paredes com a tua alma, aquilo que queres pode ser descrito no palco da vida. Se o escreveres, quando o escreveres, onde quer que o escrevas, és e serás sempre aquilo que te apetece, mas só se o quiseres mesmo. A isto chamamos de paz de espírito. Ou então de amor…

sexta-feira, agosto 10, 2007

Realidades Alternativas - Parte X - Troca por Troca


Um dia Linda Freedom encontrou-se com ela própria, desta vez senhora, à sua frente, mais especificamente Sra Linda Newown, versão idade 42 anos, vestido comprido, cabelo apanhado com a ajuda de um gancho, sapatos de salto alto, malinha de mão de pele e de marca conhecida, transmitindo sucesso financeiro, juntando-se abundância na segurança e equilíbrio no balançar, não fosse, no entanto, os rasgos de preocupação com que nos prometia, olhando para a sua versão adolescente, qual espelho mágico de circo ou de feiras popular, sombra e pastilha elástica, T-shirt, sapatilhas e mochila às costas, símbolo da instabilidade da própria idade, receio versus prazer juvenil, que invejava e era invejada de volta. Ambas se viram uma na outra, perguntando se estaria aquilo deveras a acontecer, teria a sorte finalmente batido àquela porta, com tanto poder, vendo-se a mais nova com a informação de que estaria viva e segura por essa altura, algo que nem a própria certeza poderia garantir, por meio de tantos sonhos, desilusões e incertezas em busca de respostas, e que recebe em troca o desequilíbrio mentais e misturas explosivas de sexo, álcool e outras experiências cada uma mais alucinatória do que a outra. LINDA, Newown de seu nome daria tudo para voltar a ser quem era, mantendo a capacidade de recordar tudo aquilo que lhe tinha sucedido até então. O que ela não imagina é que tudo contrabalança no baralho de cartas da realidade. Basta um segundo de inexactidão, um grão de areia num prato fundo de pureza, um milímetro apenas, desviado do ponto de chegada, a muitos quilómetros de distância no universo, para que tudo se desfaça em mil pedaços por causa das chamadas pedrinhas que desviam toda a engrenagem. O cenário resumia-se a um silêncio absurdo entre as duas, um tremer das almas, uma sensação de mal estar e de medo aliado ao sobretudo da surpresa, sendo os dois lado da mesma moeda, doendo fosse coisa boa, ou fosse coisa má. O atordoado silêncio depressa se transformou em formigueiro, e daí a areia foi num ápice, e pronto, o mundo desabou. Nenhuma se atreveu a falar mas tal não era necessário. Da voz da alma surgiu a contemplação mútua, dialogo surdo de quem sabe exactamente o que é, quando e porquê. A possibilidade de alguém poder se encontrar com a sua própria pessoa a partir do futuro era por si já, uma lotaria impossível. A mesma sorte de alguém cruzar-se com o seu passado não fica de forma alguma atrás. A probabilidade juntamente com a veracidade da acção confere a este pesar o seu ar celestial. Mas o pior veio depois. Se acrescentarmos a tudo isto o facto de dois planos da mesma linha se tocarem e se reunirem com o tempo, crepe chinês chamaram um dia, faz deste momento algo ainda mais inverosímil. Ambas as Lindas tiveram a possibilidade, por meros segundos, de tomar a decisão e trocar as respectivas posições. Uma troca de versão do corpo, um intercâmbio da mesma alma. Uma delas tem a possibilidade de regressar à juventude, já a outra avançará sem ter experimentado a luta incessante de quem procura trabalho, casa, família, aquilo que alguns gostam de chamar de felicidade, paz interior, outros não o entendem assim. Juntas pensaram o mesmo. Por mais injusto que seja o facto de estarem ali e que a escolha venha a beneficiar uma mais do que a outra, o facto de estar ali era desde já algo de só por si imensurável. Afinal de contas quem consegue isto? Quem tem esta oportunidade? Nem sequer se deve ponderar isto. Trocam-se assim os tempos, os hábitos, mudam-se as mascaras e leva-se a alma para algo nunca imaginado antes. O medo, a viagem, e pronto. Aqui estão duas versões entre milhares possíveis. Uma realidade não afecta a outra, a não ser a lembrança, a memória, ou talvez não. A ligação está lá pelo menos…