quinta-feira, abril 12, 2007

Enquanto Dormias

Sempre em frente pensava eu. O caminho corria longo mas a força era suficiente para continuar. Fui andando até que cheguei a um lugar estranho. Era amplo e claro, mas com espaços bastante escuros também. Pequenas criaturas de asas muito finas e sapatos de linho, centenas de seres flutuavam pelo caminho, vindos de grutas e buracos que não me inspiravam muita confiança. Pousei os olhos sobre uma delas. Tinha olhos finos, lúcidos e brilhantes. Parecia feliz… Fiz-me passar por simpático, afim de explorar as suas verdadeiras intenções. Foi-me retribuído o sinal. E acabou.
Acordei bem disposto, pronto para mais um dia de trabalho árduo. Hoje em dia, são muitas vezes os sonhos que nos dão momentos de felicidade, quase infantil. Tenho prazer em explorar mundos quando estou a dormir. Por vezes fazem-me rir, outras vezes transmitem-me tristeza. Chego a ter medo e que medo, garanto. Acabo por acordar completamente assustado, como se tudo aquilo que penso que sou não é nada mais do que uma simples casca que se rasga ao mínimo grito do meu interior. Sou mesmo um medroso… A verdade é que se for comparar tudo aquilo que já “passei” enquanto dormia, com a minha vida acordado, devo admitir que a minha face nocturna tem uma situação social muito mais animada… Já conheci planetas, lugares, falei das mais variadas línguas, pratiquei todos os desportos e já conheci mais pessoas do que quando estou acordado… O que é no mínimo patético mas não impossível. Até é mais provável sonhar com o Ferrari último modelo do que propriamente tê-lo… Enfim…
Esta noite há mais Sr Flor de Estufa....

quinta-feira, abril 05, 2007

Gato Fedorento no seu melhor

Estou de partida para Londres, mas gostaria apenas de comentar o cartaz que o Gato Fedorento teve o prazer de colocar mesmo ao lado do cartaz do PNR, sim porque o cartaz do PNR esse, não merece nem sequer um comentário. Há quem prefira criticar, eu cá prefiro que morra no esquecimento. Pois é senhor bimbo do PNR(cujo nome ninguém deve pronunciar sob risco de infecção urinária), para esperto, esperto e meio!

Boa Pascoa a todos e até Segunda-Feira.

terça-feira, abril 03, 2007

A Laura alugou um jipe

A Laura alugou um jipe. Veio directamente dos USA e alugou um jipe para dar as suas voltas, visitar os seus amigos, há muito que não os via. Lá estava ela, cheia de orgulho, passeando pelas ruas da sua muito mais pequena cidade, nem pensem comparar nada com a sua maravilhosa nova vida nos States. Não é que a Laura seja grande coisa por lá, nunca chegou a poupar nada em especial, nem sequer tem um emprego a tempo inteiro, mas o que interessa é que ela vem da América, e os outros não. Daí o jipe. Símbolo de poder.
O dialecto português aos poucos foi sendo empurrado pelo típico sotaque de batatas quentes na boca, assim como o andar, este muito mais modernizado que o nosso, a autoconfiança presumidamente fortalecida, vai ser um prazer olharem para mim, vão ver só...
Acontece que o jipe poucas voltas deu, por mais repetidas que estas fossem, já que a nossa pequena cidade é isso mesmo, pequena, na sua paz á beira do oceano (fora no verão em que metade da capital sai e pega nos engarrafamentos de lá, e resolve trazê-los para aqui). Tem duas avenidas principais, um passeio de calçada á beira do mar, com bancos e palmeiras, caminho diga-se de passagem, pedestre e tranquilizador, tão puro e simples como nós.
Os amigos esses não mudaram muito, a não ser o facto de estarem todos bastante estáveis na vida, mantendo o prazer da suavidade dos momentos, a calma de existir, o sabor do passar do tempo, e isso reflete-se no seu estar, na cor da sua pele, na leveza do olhar. Tudo isto nada tem a ver com a evolução das sensações que a Laura traz da terra prometida. Para ela tudo isto é sinónimo de pasmaceira e não compreende porque não conseguem ver que ela está muito melhor. Aquilo é que é bom, altas festas, musica e tudo o mais... Mas o tudo o mais, aquilo que realmente torna as pessoas felizes a longo prazo, aquilo que ela nunca conseguiu ver cá, também lá não o viu nem o quis. Limitou-se a entrar na rotina superficial que tinha aqui. Mudaram os tempos, manteve-se a vontade.
Hoje tudo aquilo que há lá também existe aqui, se bem que filtrado o essencial,o mais importante, digamos que o menos vulgar, superficial, etc... Hoje em dia quem souber viver bem fá-lo em qualquer lado. O contrário também acontece. O melhor que a Laura fez foi entregar o jipe apanhar o avião de volta. Aquilo afinal não correu como ela tinha imaginado. Pelo menos lá toda a gente concorda com ela. Lá é muito melhor sim senhor, tens razão Laura. Vai lá curtir vai...

sexta-feira, março 30, 2007

Realidades Alternativas - Parte VII - Fiz-me á estrada

Fiz-me á estrada. Saí de casa um dia, fato de trabalho, pasta de trabalho, sentimento de trabalho, em direcção, pois claro, ao trabalho. Trabalho este que sempre me encheu de satisfação a todos os níveis. Respeito, bom salário, responsabilidade quanto baste, enfim. Até aqui nada a assinalar, nenhuma queixa, pelo contrário, quem dera a muitos... E pronto, lá ia eu, ex-vagueante de mochila, tenda e guitarra ás costas, sempre rodeado de amigos e noitadas sem fim, praia, campo, terras novas, outras culturas, outras opiniões e pontos de vista. Muitas noites ao relento, muitos duches improvisados, muitos hotéis e pensões também, comida conforme a bolsa, etc e tal... lá ia eu como se nunca tinha sido um dia mais feliz ainda. Lá ia eu todo sentimento, todo luz. Mas nem tudo o que luz é ouro e bastou olhar para fora para ver alguém a pedir boleia. Tal como o tinha feito tantas vezes, alguém estava a passar pelo que eu tinha tido tantas vezes passado, com tanta leveza no coração, sem rumo, sem pressa, sem nada. Foi mais forte do que eu. Muito mais forte do que eu. Veio-me uma angústia, uma nostalgia que se prendeu em mim sem dó nem piedade e que me fez irromper no espaço e no tempo. Tentei tentar segurá-la, mas sem o querer demasiado. Acabei por aceitá-la timidamente, depois prendê-la, e finalmente abraçá-la com todas as minhas forças. Pisei o acelerador e decidi não voltar mais. Arrependi-me e asustei-me inumeras vezes pelo caminho, tive medo de abdicar, pensei em voltar atrás enquanto ainda era tempo, mas acabei por não o fazer. Fui-me. Decidi com outro tipo de consciência seguir em frente. Não parei, não olhei mais para tráz e fiz o que devia sempre ter guardado dentro de mim. Fui mais além, fui feliz por mais alguns tempos...

quinta-feira, março 29, 2007

Eurovisão a quanto obrigas

Quando era mais novo gostava do festival da Eurovisão. Nunca via a versão portuguesa, aquela que servia para escolher a composição que nos ia representar no festival da Eurovisão, mas lembro-me de, no evento maior, esperar ansiosamente pela canção portuguesa, e também recordo os momentos angustiantes que eram o das votações, e claro a decepção final de nunca chegar a lado nenhum. Lembro-me também do meu pai, habituado aos maus resultados, saber com antecedência que aquilo não iria dar em nada e avisar-me antecipadamente para não voar muito alto porque a queda estaria á minha espera no final do programa. Como sempre dizia-me no fim... “Vês, eu avisei-te que não iam chegar a lado nenhum...”
Este ano, após uma bos dezena de anos sem nunca mais ter visto o concurso, tropeçaram os meus olhos na nossa versão portuguesa, que, após votações que ninguém vê, decidiu por uma canção de uma tal de Sabrina, com o nosso querido e talentoso Emanuel literalmente enfiado “por trás”, feliz e orgulhoso, daquilo que, na minha opinião, ele e todos os portugueses deveriam era ter vergonha. Mas afinal de contas, que merda foi aquela? Que palhaçada de canção, com aquela coisa sem voz nenhuma, e aquele vestido á prostituta barata e mais o coro de cabaré de segunda... enfim, de fugir a sete pés...
Nem me vou pôr a comentar a letra da canção porque sinceramente, não tenho pachorra, é mau demais pessoal, a sério. E vai “aquilo” representar um país... Meu Deus até me falta o ar só de pensar nisso. Ainda bem que o programa hoje em dia também já não é o que era. Tambem o próprio festival Eurovisão desceu de qualidade a todos os níveis. Antes sempre tinha aquele formato de gala com algum cuidado com as letras e a orquestração por parte de todos os envolvidos. Hoje estamos perante uma mistura de circo rasca com bandeirinhas e pipocas á mistura. As canções são, na sua maioria em inglês e a formula utilizada é cus e mamas ao desbarato, com coreografias ensaiadas pelos criadores dos onda-choque e companhia Lda. Não me recordo se foi no ano passado ou no anterior em que ganhou um grupo de rapazes nordicos vestidos á monstros e vampiros, estilo black metal e sei lá que mais, a dada altura o cantor abre a goela e saem, junto com uns grunhidos e uns foguetes vindos do palco, um par de asas mecânicos que este trazia preso ás costas... aind me ri um bom bocado com aquilo.
Não sei em que ponto me deva situar. Não sei o que é pior, se o tipo de programa em que o festival se tornou, se a nossa própria imagem nestes eventos. O certo é que a Sabrina e o Emanuel são um exemplo de Portugal que até se podia dispensar. Não é por nada que os cantores denominados foleiros, e com isto não me refiro a todos os cantores da música ligeira em Portugal, que muito mérito têm, por mais que os tentem apagar do panorama nacional, mas os ditos cantores foleiros só aparecem onde não faziam falta nenhuma.
Só tenho pena que não nos esforcemos por dar apoio a outro tipo de artistas que sempre deram brilho ao nosso país e que vêm constantemente á televisão pedir por serem levados a sério, enquanto que outras porcarias andam por aí a saltitar como se fossem alguma coisa que se preze.
Eu recordo a Eurovisão com prazer, mas hoje em dia se tivesse filhos não os deixava ver tal aberração. O que nos vale é que a canção portuguesa que ainda ia a concurso mas não arrecadava muitos pontos, agora então é que nunca vai lá pôr os pés e ainda bem. Por este andar, e com esta qualidade de gente que vai até ao ponto de fazer fantochadas e tudo o que for mais vistoso possível para aparecer na televisão, no próximo ano o José Castelo Branco pode tentar dar uma perninha a ver se ganha, ele também. Até eu vou aprender dois acordes e vou lá cantar qualquer coisa. Se a Sabrina consegue, digam-me vocês quem é que não pode?

quarta-feira, março 28, 2007

Allgarve para tótós


O nosso querido estado decidiu gastar 3 milhões dos nossos euros numa campanha de marketing, projecto de divulgação da região do Algarve, optando por nomear a operação, qual tempestado no deserto, por, e após horas de profunda meditação, se fosse camone como é que eu me sentiria e coiso e tal,finalmente por ALLGARVE. Acontece por puro acaso, que trabalho numa empresa dirigida por Ingleses, com colegas de trabalho ingleses, sul africanos, suecos, belgas, australianos etc e tal, e se para nós portugueses, a ideia é simplesmente ridicula, para eles, o termo não reflecte nada de minimamente inteligente, não possui significado algum, o jogo de palavra que alguém tentou fazer, seguramente um português, não atinge os objectivos a que se destina a referida operação.
Nem sei o que diga acerca de tão brilhante ideia... Parece saída de um filme do Monty Python. "and now ladies and gentlemen for something truly unique... the ALLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLGARVE!!!!!!

segunda-feira, março 26, 2007

Estúpidez precisa-se...

A Sra Horta vibra com o novo programa que iniciou na passada semana... Juntaram mulheres bonitas mas literalmente "burras" com rapazes de pouco porte mas intelectualmente desenvolvidos, dois apresentadores fanfarrões e um juri supostamente elevado em assuntos de relações e cultura... Tudo mal misturado, com tarefas para cada um dos concorrentes, no sentido de preencher as suas lacunas estéticas ou intelectuais. A Sra Horta adorou a ideia e agora não perde pitada do programa. Tenta em vão responder ás perguntas, descobrir a identidade das personalidades que as raparigas do concurso, após uma semana de estudos, tentaram decorar, também elas em vão. Em vão acaba por estar igualmente a mente da Sra Horta, mesmo que esta não se identifique com as referidas raparigas, que até são bem jeitosas e não são obrigadas a saber tudo coitadinhas, também ela tem dificuldade em reconhecer as personalidades que vão aparecendo no ecrã. Cala-se enquanto o nome não vem á baila, e só depois comenta.

A ignorância deles é a ignorância de todos nós.

"há coisas que elas deveriam saber, porque são mesmo fáceis"
Pois é querida Sra Horta, mas há coisas que nem tu sabes, nem tu nem milhões de pessoas neste país, pessoas que estão precisamente a ver o mesmo programa que tu estás. Nem que seja uma daquelas perguntas... também tu és uma vergonha Sra Horta. Tu, tal como os apresentadores, o próprio juri, nem esses conhecem algumas das respostas para as perguntas feitas ás meninas... e isso é uma vergonha. Se queres que te diga Sra Horta, nem os supostos meninos intelectuais sabem algumas das tais respostas.

A ignorância de viver com eles é a ignorância de todos nós.

Tenho vergonha por mim, por elas, as meninas,mas também pelas pessoas envolvidas no programa, por todos aqueles que preferem as audiências aos escrupulos, pelas pessoas que fazem vida que vivem e vibram com tudo aquilo que passa na televisão em Portugal, as novelas, os programinhas da tarde, a incultura e a burrice, as palmas de quem se sujeita a horas de tontaria nos programas em directo, o animador de serviço que manda rir ou bater as tais palminhas, a palhacinha sem piadinha nenhuma, os músicos da tristeza, o apresentadores sem sorriso, os cantores pimba com a sua sina, os comediantes humilhados, que nos humilham obrigando-nos a gramar com o frete deles, a todos nós, imagens da pobreza cultural, mais do que nunca e para sempre.

A ignorância de ser como eles é a ignorância de todos nós.

Sra Horta tenho muita pena de ti mas não serves rigorosamente para nada...

PS. Lembro-me do tal do "Acontece", considerado o programa cultural por excelência am Portugal. Passava ao fim do dia no canal 2 da nossa querida RTP. Ainda bem que o tiraram do ar porque não merecia com certeza estar no mesmo saco.

sexta-feira, setembro 29, 2006

Realidades Alternativas - Parte VI - Dejá Vu

Estava no avião com destino de regresso a Portugal quando finalmente aconteceu aquilo que tinha desejado com tanta força, após a minha primeira tentativa, tinham passados 20 anos. Voltei ao início da minha vida. Foi ao som do Michael Jackson que aconteceu. Tantas e tantas vezes tinha pedido para começar de novo, regressar ao período mais feliz da minha existência, à minha infância, e recomeçar a partir daí, sabendo tudo aquilo que sei hoje. Fechei os olhos e com a ajuda dos meus auscultadores tentei regressar, dentro do avião, aos meus velhos sentimentos e sensações infantis, ao som de I Wanna Rock with You. Imaginei de novo as pessoas, os amigos, familiares que tanta falta me fazem, quis mais uma vez que tudo voltasse atrás, tudo menos a minha alma, as minhas memórias. Tentei recordar os cheiros, as cores, a felicidade do momento, tudo o que a minha memória me permitia. Concentrei todas as minhas tentativas num único momento e esperei sem respirar. Tantas tentativas iguais a estas tinham-se repetido em vão ao longo de toda a minha vida. Tentei simetrizar este momento com aquele mais próximo possível nas minhas recordações tão longe, o seu homónimo no passado, por mais fino que seja. Lembrei-me de uma outra viagem, mesmo que a origem ou o destino não fossem mais do que vagas suposições. Lembrei-me de uma pasta presa ao pescoço, uma hospedeira que não era mais do que uma camisa, um cachecol e uma saia azul, de mão dada comigo, a caminho da saída. Imaginei o reencontro com a minha família, os risos e os abraços. Pensei, esforcei todo o meu corpo, mais uma tentativa, desta vez com todo o poder das minhas recordações…
Esperei não sei quanto tempo. Por segundos ou minutos, não sei. A canção passava e transportava-me ao passado. E depois… nada. Vazio. Silêncio.
Abri os olhos e olhei à minha volta. Por momentos descobri que tinha estado realmente lá. No meu mais profundo recanto de amor, tinha estado lá. Senti-me feliz e muito triste ao mesmo tempo. Tinha sido tudo tão breve, e mais uma vez não teria resultado. Ou teria?
Olhei com atenção à minha volta. Senti algo pendurado ao meu peito. Vi tudo á minha volta como se uma imagem sépia da modernização. Senti-me leve, respirava com desenvoltura, todo o meu ser era agora muito ágil. Senti medo. Olhei para as minhas mãos, eram finas e…
Obrigado! Pensei quase a explodir em lágrimas! Obrigado!

terça-feira, setembro 12, 2006

Desliguei a Televisão

Encostei-me ás emissões de rádio. Deixei-me embalar pelas conversas, anúncios e canções. Ouvi os comentários, as críticas, os ensaios, os poemas, fugi dos anglicismos e americanismos que optam por nos lavarem o cérebro até à exaustão, com temas débeis de sentido, vazios, sem alma. Preferi as divagações complicadas dos nossos comentadores, as frases ensaiadas, cheias de analogias e sentidos turvos de duplicidade, o pavoneio dos líderes sem razão, os queixumes dos desgraçados, as lutas sem fim, as opiniões, os insultos, que definem verdadeiramente as cores das nossas vidas…
Muitas vezes revejo-me nos ódios de estimação, nos orgulhos que partilho com os outros, que falam por mim, me apoiam e me substituem na voz, na alma e no saber.
Desliguei a televisão porque senti que estava a precisar. O magnetismo é demasiado, e tentar desviar o olhar torna-se numa ansiedade sem sentido. Qualquer som obriga-nos a exigir a respectiva imagem, e quanto mais alto melhor. Em pouco tempo, de nada tornei-me num escravo televisivo sem necessidade. Na rádio, tal como num livro o esforço é maior, mas também o é a recompensa. A imaginação torna tudo muito mais aguerrido, mais solto, articulado, bivalente. Imagino alguém que os meus olhos nunca presenciaram, pela minha perspectiva, do meu ponto de vista. Escolho o tamanho, os traços, a importância, tomo as minhas próprias decisões. Recebo, mastigo e rejeito tudo aquilo que não me interessa. Sou quem sou e quem quero ser sem ser desviado para aquilo que alguém decidiu servir-me…

segunda-feira, setembro 11, 2006

Chico Buarque - Construção

Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido
Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima
Sentou pra descansar como se fosse sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse música
E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acbou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego

Amou daquela vez como se fosse o último
Beijou sua mulher como se fosse a única
E cada filho seu como se fosse o pródigo
E atravessou a rua com seu passo bêbado
Subiu a construção como se fosse sólido
Ergueu no patamar quatro paredes mágicas
Tijolo com tijolo num desenho lógico
Seus olhos embotados de cimento e tráfego
Sentou pra descansar como se fosse um príncipe
Comeu feijão com arroz como se fosse máquina
Dançou e gargalhou como se fosse o próximo
E tropeçou no céu como se ouvisse música
E flutuou no ar como se fosse sábado
E se acabou no chão feito um pacote tímido
Agonizou no meio do passeio náufrago
Morreu na contramão atrapalhando o público

Amou daquela vez como se fosse máquina
Beijou sua mulher como se fosse lógico
Ergueu no patamar quatro paredes flácidas
Sentou pra descansar como se fosse um pássaro
E flutuou no ar como se fosse um príncipe
E se acabou no chão feito um pacote bêbado
Morreu na contramão atrapalhando o sábado


Chico Buarque : Construção
Letra e música: Chico Buarque
In: 1971
Nivaldo